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04-07-2026        As Beiras

Há momentos na vida que parecem um fim, mas são, afinal, um começo. É justamente esse o momento que muitos jovens vivem agora, enquanto aguardam os resultados dos exames nacionais, entre a expectativa e a incerteza que antecedem a entrada numa nova etapa. Arrumam-se os livros, multiplicam-se os abraços e as despedidas. Fecha-se um ciclo, mas, sob o olhar da sociologia, abre-se um novo capítulo no processo de construção da identidade.

A identidade não é uma construção individual, mas relacional. É nas interações que estabelecemos na família, entre os pares, na escola e noutros contextos da vida que aprendemos quem somos e quem podemos vir a ser. Entre esses espaços de socialização, a escola ocupa um lugar singular. É aí que o reconhecimento de um professor pode alargar o horizonte das possibilidades de um aluno ou, pelo contrário, deixar potencial por revelar. As expectativas não se limitam a descrever percursos, ajudam também a produzi-los.

Na escola aprendemos, por isso, muito mais do que conteúdos. Aprendemos a matemática dos incentivos, da confiança e dos afetos. Uma matemática sem fórmulas nem equações, mas capaz de somar ou subtrair possibilidades ao nosso futuro.

Ao longo dos doze anos de escolaridade, dezenas de professores cruzam as nossas vidas. De alguns guardamos memórias mornas, outros esquecemo-los naturalmente. Nem todos encontram um professor que permaneça para sempre na memória, mas, quando isso acontece, raramente é por causa de uma equação ou de uma regra gramatical. É porque, num dia aparentemente igual aos outros, alguém nos fez acreditar que podíamos ser mais do que imaginávamos. É precisamente esse o contributo da escola que mais dificilmente se consegue captar.

Vivemos num tempo fascinado pelos rankings, pelas médias de acesso ao ensino superior e pelo potencial transformador da inteligência artificial na educação. Tudo isto merece atenção. Há, contudo, um paradoxo que permanece no centro da escola contemporânea. Quanto mais aperfeiçoamos os instrumentos para medir as aprendizagens, mais evidente se torna que nem todas as dimensões da educação são igualmente mensuráveis. Sabemos comparar resultados, calcular desempenhos e produzir indicadores. Continuamos, porém, sem conseguir apreender com a mesma precisão o impacto que o reconhecimento, a confiança ou uma palavra de incentivo podem ter nas trajetórias dos alunos.

Justamente aquela que menos se deixa medir é, provavelmente, uma das dimensões mais importantes da escola. Há professores que permanecem connosco muito depois do último dia de aulas. Não apenas porque ensinaram uma disciplina, mas porque nos ajudaram a descobrir capacidades que ainda não reconhecíamos em nós. Continuamos, muitos anos depois, a habitar a imagem que um dia nos ajudaram a construir.

No fim, há uma pergunta que as pautas não respondem. Quantos jovens terminam a escola levando consigo a convicção de que são capazes?  Porque há percursos que começam muito antes das escolhas que fazemos. Nascem na confiança que alguém deposita em nós. 


 
 
pessoas
Ana Raquel Matos



 
temas
ensino    aprendizagens    escola