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06-06-2026        As Beiras

As instituições existem nos discursos que produzimos sobre elas, mas revelam-se verdadeiramente nas situações em que delas dependemos. Na noite de 15 para 16 de maio tive a oportunidade de observar o funcionamento do SNS para lá das manchetes, sentada numa cadeira das urgências do Hospital Universitário de Coimbra, a acompanhar um familiar.

Não escrevo este texto para negar os problemas do sistema. Eles existem e reclamam respostas políticas à altura da sua gravidade. Esta é, aliás, uma observação situada, que não pretende apagar realidades diferentes nem desvalorizar experiências distintas. Escrevo porque a minha atenção foi desviada para uma dimensão que tende a permanecer na periferia do debate público.

Na sala de espera observei formas espontâneas de comunidade entre desconhecidos. Pessoas que partilhavam histórias, desabafos e palavras de apoio para tornar aquele tempo suportável. Essa solidariedade não nasce de normas ou valores previamente assumidos, mas de uma reação imediata à experiência comum de vulnerabilidade. Naquele espaço, desfazem-se algumas distâncias sociais e descobre-se que, mais cedo ou mais tarde, todos dependemos uns dos outros.

Os gestos de humanidade são também visíveis no trabalho de quem sustenta o funcionamento do hospital. Tive tempo de observar médicas, enfermeiros, auxiliares e técnicos a gerirem uma sala de atendimento lotada. Vi-os sempre a dirigirem-se aos doentes pelo nome. Num contexto marcado pela rapidez, pela classificação e pelo procedimento burocrático, o nome devolve singularidade a quem o sistema corre o risco de reduzir a um número de processo, a uma pulseira ou a uma categoria clínica. Nestes gestos aparentemente simples revela-se aquilo que a sociologia designa por trabalho relacional: a capacidade de gerir a incerteza, conter o medo, interpretar necessidades que nem sempre são verbalizadas e produzir a confiança necessária para que o cuidado aconteça. Trata-se de um trabalho frequentemente invisível nas métricas de desempenho e nos debates sobre eficiência, mas fundamental para o funcionamento quotidiano das instituições de saúde.

Reconhecer estas dimensões não significa assumir que a solidariedade só é possível em situações de vulnerabilidade, nem que a dedicação dos profissionais possa suprir indefinidamente as carências de meios e infraestruturas. Significa, pelo contrário, recordar que o SNS é mais do que um sistema de prestação de cuidados de saúde. Numa época em que tantas experiências sociais se tornaram desiguais e fragmentadas, o SNS permanece como uma das instituições que melhor concretiza a ideia de pertença coletiva. Recorda-nos que, apesar das diferenças que nos separam, continuamos vinculados por formas de solidariedade que reconhecem, na vulnerabilidade de cada um, uma responsabilidade de todos.


 
 
pessoas
Ana Raquel Matos



 
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