[Rua Larga, n.º 60]
Há uma beleza que não se vê logo. Uma beleza que não cabe nas vitrines da perfeição, nas prateleiras da mais bela das bibliotecas, nem nas métricas da produtividade académica. É a beleza que nasce quando as diferenças convivem, quando o pensamento se alarga para acolher o outro — o que vem de longe, o que fala com sotaque, o que lê o mundo de um ângulo inesperado. Essa é a beleza que a universidade precisa de aprender a reconhecer e a cultivar.
Durante séculos, o ensino superior cultivou uma estética da homogeneidade: a ideia de que o belo, o verdadeiro e o bom coincidiam num mesmo modelo de saber, de corpo e de voz. Branco, ocidental e masculino. As universidades nasceram como templos da razão — e, como muitos templos, guardavam portões altos, invisíveis e intransponíveis. A uniformidade era sinónimo de rigor; a diferença, uma ameaça à ordem do conhecimento. Mas o conhecimento, sabemos hoje, é uma força inquieta; uma força que aciata: cresce quando é contrariado, ilumina‑se quando é contaminado pelo imprevisto. E o imprevisto é o outro e o estranhamento.
Há, portanto, uma mudança silenciosa e urgente em curso: a passagem de uma estética da exclusão para uma estética da convivência. A beleza já não está apenas na simetria das ideias, mas na harmonia possível entre vozes dissonantes.
Incluir não é apenas permitir a entrada; é permitir a expressão. E essa permissão — ética, política e estética — redefine o que entendemos por beleza.
Num campus verdadeiramente inclusivo, a beleza não está nas fachadas históricas nem nas marcas de prestígio, mas na pluralidade das presenças: no estudante que traduz o mundo em língua gestual, na investigadora que reivindica uma ciência sem fronteiras de género, no professor que reconhece a sabedoria do silêncio tanto quanto a do discurso.
Cada um amplia a paisagem estética da universidade. Cada diferença é uma cor acrescentada ao quadro comum do saber.
Falar de inclusão é, pois, falar de estética, porque o modo como olhamos o outro determina o que consideramos belo. A diversidade desafia o olhar, desloca o centro, obriga‑nos a repensar proporções. E é nesse deslocamento — por vezes desconfortável — que o pensamento se torna mais vivo. Não há aprendizagem sem espanto, nem espanto sem alteridade.
A beleza da inclusão não é a do espelho, mas a da janela. Não é o reflexo de si mesmo, mas a abertura para o mundo. Como escreveu Georg Simmel, o ser humano é aquele que «separa e liga ao mesmo tempo», aquele que constrói pontes e abre portas para transformar a distância em encontro. A inclusão é precisamente esse gesto: o de manter a porta aberta ao que é diferente e o de lançar pontes sobre o que nos separa. Só assim a universidade se torna verdadeiramente bela — quando o olhar não se detém na superfície do idêntico, mas atravessa a moldura da janela e reconhece, do outro lado, uma paisagem comum feita de múltiplas margens. Uma universidade bela é aquela em que se ouvem múltiplas linguagens, em que o corpo e o saber deixam de ser territórios normativos e passam a ser campos de experimentação. É aquela em que a deficiência não é deficiência, mas diferença; em que o sotaque não é ruído, mas ritmo; em que a origem não é limite, mas ponto de partida. Há, no gesto de incluir, uma estética da ternura — um modo de ver o outro sem o reduzir, de escutar sem traduzir tudo, de ensinar aprendendo com a diferença. A ternura é talvez a forma mais sofisticada da beleza contemporânea. É ela que transforma a universidade em comunidade.
O ensino superior, quando se pensa como espaço de diversidade, deixa de ser apenas produtor de conhecimento: torna‑se produtor de sentido.
Cada projeto, cada investigação, cada aula, cada interação nas ruas da cidade, torna‑se um laboratório de convivência. A beleza surge então como critério ético — não o belo do acabamento, mas o belo da relação. O belo que acolhe, que expande, que desarruma para depois reorganizar.
E talvez seja esse o verdadeiro papel da universidade: não o de reproduzir formas perfeitas, mas o de criar lugares imperfeitos onde o pensamento se mistura, onde o saber respira, onde o humano se reconhece múltiplo.
Porque só uma instituição que reconhece a beleza do diverso é capaz de formar pessoas verdadeiramente livres — livres para ver, para sentir e para compreender o mundo em todas as suas cores.
A beleza que inclui não é uma utopia estética; é uma prática quotidiana. Está no gesto de traduzir um texto para que todos compreendam, no esforço de desenhar rampas e currículos que não excluam, na paciência de ouvir uma história que demora mais tempo a ser contada. Está, sobretudo, na consciência de que o conhecimento só é pleno quando é partilhado — quando deixa de ser privilégio e se torna linguagem comum.
A universidade do futuro — bela porque plural — será aquela que souber converter a diversidade em método, a empatia em instrumento e a diferença em critério de excelência. Uma universidade onde o brilho não venha apenas do que se publica, mas também do que se partilha; onde a inteligência se meça não pela competição, mas pela capacidade de gerar vínculos.
Porque o belo, afinal, é o que nos aproxima. E nada é mais belo do que aprender juntos, reconhecendo no outro o reflexo daquilo que ainda não sabemos ser, assim como o poder dessa força para nos tornar maiores do que aquilo que éramos antes.