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30-04-2022        As Beiras

A dada altura do seu emotivo discurso de receção na Assembleia da República a Volodimir Zelenski, presidente da Ucrânia, Augusto Santos Silva afirmou que «os países da Europa e do Atlântico Norte têm o direito de reforçar a sua capacidade de dissuasão». Para uma porção significativa da esquerda portuguesa esta declaração ainda representa algo inaceitável. Não custa elencar alguns dos motivos que determinam esta atitude de rejeição: a memória dos anos da Guerra Fria, quando parte desse setor via de forma positiva o outro lado da «cortina de ferro»; o entendimento da União Europeia como espaço de afirmação da política e da economia do capitalismo neoliberal; a consideração do caráter historicamente autoritário e belicoso do imperialismo norte-americano, do qual a NATO é uma extensão; e a desvalorização de poderes imperiais concorrentes, encarados até, na lógica do «inimigo do meu inimigo, meu amigo é», como ocasionais aliados.

É sobre este último aspeto que existe um maior número de dúvidas. No início da década de 1990, com o desaparecimento da União Soviética e um ainda moderado poderio militar, diplomático e económico da China, o mundo parecia tender para uma dimensão unipolar, com uma economia global que detinha como poder dominante, reforçado até, os Estados Unidos da América. Por essa altura, recordar-se-ão os que estavam mais atentos, a NATO procurava, para justificar a sua existência, enfatizar artificialmente o perigo do que genericamente se designava «fundamentalismo islâmico», apresentado, antes ainda das iniciativas militarmente mais violentas do Taliban e do Daesh, como uma ameaça real ao modo de vida «ocidental» e à estabilidade dos Estados que integrava. Nesse contexto, era relativamente fácil questionar a continuação da política armamentista, vista, com justeza, como instrumento de um poder que procurava manter a hegemonia militar e política da superpotência sobrevivente e dos seus aliados. 

Todavia, perante os conflitos, as ameaças e as terríveis incertezas que temos vivido já neste século, mergulhados numa deriva que, como referiu Timothy Snyder, parece abrir de novo «o caminho para a servidão», essa perspetiva relativamente benévola da relação entre paz, guerra e equilíbrio mundial deve ser repensada. O confronto na Ucrânia pode ajudar-nos a ver-nos um mais complexo e muito mais perigoso cenário, dentro do qual esses temas se colocam numa dimensão de urgência. Mesmo deixando aqui de parte o papel cada vez mais agressivo da China, a crescente afirmação do poder imperial da Rússia sob a direção de Vladimir Putin tornou-se uma evidência. Apesar de ser apenas a 11ª potência mundial em termos de Produto Nacional Bruto, a Rússia é dona do segundo arsenal nuclear do planeta, do qual se está a servir para, em associação com um nacionalismo extremo, incutir obediência e restaurar o seu peso geoestratégico de natureza imperial. Da Bielorrússia, Síria, Irão e Afeganistão à Polónia, Suécia, Finlândia, Estados Bálticos e Moldávia, que Putin e o seu ministro Lavrov têm repetidamente ameaçado, para além da interferência em África. A agressão brutal à Ucrânia deve ser entendida neste quadro.

Fará então sentido aceitar-se a política de rearmamento da Europa na qual o governo português pretende participar? Proponho um exercício: pegar num mapa da Europa e da Ásia e observar a mancha gráfica ocupada pelos Estados de democracia representativa e aquela preenchida por regimes de natureza ditatorial e agressiva, como é o caso daquele sediado em Moscovo. Facilmente se perceberá que a separação entre a área de influência da NATO e a da Federação Russa e dos seus aliados corresponde sensivelmente a essa distinção. Por isso, e apesar de ser imperativo democratizar a Europa e a própria NATO, impedindo esta de repetir desgraçadas aventuras do passado, existe também uma clara necessidade de, na promoção da paz, fazer frente aos que em seu nome justificam tiranias e políticas de conquista, como atualmente acontece com a Rússia e quem lhe dá credibilidade. Santos Silva disse ainda no parlamento que «deve primeiro ganhar-se a paz, e depois é que se pode construí-la». A afirmação pode levantar justas objeções, podendo ser vista como uma concessão ao militarismo, mas é importante refletir sobre ela. Se a alternativa for a paz dos vencidos, não será difícil chegar a uma conclusão e fazer escolhas


 
 
pessoas
Rui Bebiano



 
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