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10-02-2021        JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias

1. Toda a obra de Orwell, da não-ficção ao romance, manteve desde o processo da criação à publicação um vínculo fortíssimo com a atualidade. Porém, no que respeita à intenção explícita do autor, e também ao impacto público dos seus livros, este nunca foi tão evidente como com os dois romances finais, Animais de Quinta e 1984. Em particular com o último, que foi além da forma estritamente alegórica do primeiro, confinado a um universo não-humano, sendo construído como uma distopia profundamente humana, tendo como referente medos e realidades que na época inquietavam o mundo e o autor. 1984 saiu quando a Guerra Fria estava a começar e aludia claramente ao sistema repressivo e censório, dotado de capacidade para abarcar de forma total a sociedade, instalado na União Soviética do tempo de Estaline. Sabemos que, após os anos da Birmânia, Orwell se assumiu no plano político como homem de esquerda, mas como um socialista que prezava a liberdade e a democracia como essenciais, o que o levou a rejeitar liminarmente um regime que outro lado da mesma esquerda, na época com grande influência entre os artistas e intelectuais do ocidente, apresentava como modelo.
A revolução do digital aplicada ao universo da comunicação, nomeadamente à disseminação da Internet e às redes sociais, bem como à capacidade de vigilância por parte dos Estados – da qual a China é hoje o exemplo mais notório e tristemente “avançado” –, tem criado condições para compreender melhor a alusão que Orwell fez ao caráter tirânico de uma sociedade submetida a pesadas formas de hipervigilância dos cidadãos e de omnipresença no seu quotidiano dos símbolos do poder máximo. Do lado do presente, este território de observação e controlo dos cidadãos foi, sem dúvida, ampliado nos últimos meses pelas circunstâncias da pandemia, impondo, nomeadamente através da automatização de determinados processos de trabalho e de contacto, e apesar de aspetos positivos que também trouxe, uma situação de controlo e uma imposição de ritmos de vida muito grandes. É de temer que ela tenha vindo para ficar e, por este motivo, os espaços da cidadania e da democracia devem manter o cuidado com o tema nas suas agendas.

2. A resposta anterior pressupõe uma anuência. Sim, infelizmente é de temer que as circunstâncias, em termos de uso alargado das tecnologias da comunicação e de atuação das autoridades no campo do controlo e das tomadas de decisão por via telemática, nomeadamente no que respeita às condições de trabalho e de circulação dos cidadãos, possam levar à instalação alargada de regimes até há pouco tempo apenas imagináveis no território aterrador dos universos ficcionados como distopias. Vertentes que estas sempre contêm, como os associados à dependência das tecnologias e à redução dos espaços de liberdade, assim como ao reforço das hierarquias ou à redução das áreas de convívio humano relacionadas com a democracia, a cultura ou a própria fruição da natureza, para falar apenas de alguns aspetos, requerem sem dúvida a maior atenção. Se é verdade que as utopias são, como lembrou o filósofo Ernst Bloch, basicamente desejos sociais projetados, logo realidades inatingíveis de uma forma absoluta, já as distopias podem traduzir uma materialização de muitos dos nossos piores pesadelos. 


 
 
pessoas
Rui Bebiano



 
temas
distopia    george orwell    pandemia    comunicação    isolamento    democracia