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03-03-2019        Jornal de Notícias

Os problemas da geração mais velha dizem respeito apenas a essa geração? Não. Porque numa sociedade democrática é sempre preciso compromissos solidários entre as gerações. As sociedades sofreram e sofrem profundas mudanças ao nível da sua estrutura, organização e funcionamento e no último meio século produziram-se disfunções e ruturas entre as diversas gerações que urge tratar, em alguns casos de forma nova. Os avanços científicos e tecnológicos baralharam e transformaram a utilização do tempo, tornaram mais complexo o mundo do trabalho, mas também abriram horizontes para um novo e amplo leque de atividades humanas. Entretanto, tem-se conseguido e projeta-se para o futuro uma extraordinária conquista de tempo de vida com mais saúde.

Nas últimas décadas foram ensaiadas, à escala nacional e em particular nos países mais desenvolvidos, políticas relativas ao “envelhecimento ativo” que tiveram aspetos pontuais positivos. Mas o conceito precisa de ser revisto e, acima de tudo, são evidentes as insuficiências e desadaptação dessas políticas. Os pressupostos e bases em que têm assentado, acantonam a observação da vida das pessoas apenas no período temporal após a chamada vida ativa e estão longe de olharem para a situação da população toda. 

Ora, se uma pessoa enquanto trabalhador não dispuser de tempo para vida em família, para ir construindo a sua educação e formação nos níveis correspondentes ao tempo em que estamos, para participar em atividades desportivas e recreativas, sociais, culturais e políticas de forma adequada às fases da sua vida; se não tiver formas de ir integrando as dinâmicas da sociedade; se os trabalhos que for desempenhando na vida profissional não tiverem qualidade, fomentarem a rutura entre gerações e não lhe propiciarem rendimentos e condições para uma vida digna, em vez de “envelhecimento ativo” terá, por certo, um envelhecimento amargo, frustrante e pesado, em muitos casos sujeito a exploração e miséria chocantes.

Comecemos então a tratar a questão da longevidade das vidas humanas como variável independente sempre presente na definição das políticas nas áreas fundamentais da nossa vida toda, nomeadamente, saúde, ensino, trabalho, rendimentos, habitação, infraestruturas base, mobilidades, relações entre as gerações, proteção social ou questões de género.

Aos reformados e pensionistas e às suas organizações, bem como aos sindicatos e outras instituições que assumem a defesa dos interesses dos trabalhadores “ativos” e “não ativos”, impõe-se uma reformulação e articulação de agendas.

Os reformados têm de reivindicar com persistência aumento regular e justo das suas reformas, revisões da legislação e de procedimentos nas áreas em que se registam injustiças inclusive nas políticas fiscais, condições de mobilidade e novos compromissos para garantir dignidade, designadamente às pessoas que estão em situação de dependência. Eles têm de exigir infraestruturas, equipamentos e compromissos claros (e sua fiscalização) entre Estado, instituições diversas e autarquias - os principais operacionalizadores e prestadores de grande parte dos serviços, que se querem universais e de qualidade. É preciso forçar a evolução qualitativa da rede pública de cuidados continuados e a definição de um verdadeiro Plano Nacional Global Sobre Envelhecimento e Dependência.

Mas para a geração mais velha de hoje (reformados…) e ainda mais para a de amanhã, as lutas de agora pelo emprego e melhoria da sua qualidade, pelo aumento dos salários e contra a precariedade, pela defesa do Estado Social, pela redução dos horários de trabalho constituem-se como temas primordiais que devem estar mais presentes nas agendas das suas organizações. Os sacrifícios vão agravar-se rapidamente se o nosso produto exportador de excelência continuar a ser a emigração dos jovens, ou se tolerarmos que se considerem velhas para trabalhar as pessoas com mais de 45 anos.

Um cidadão trabalhador que durante a vida profissional não tenha espaço, condições e rendimentos para ter atividades para além da profissão, quando chegar à idade da reforma só excecionalmente conseguirá viver um verdadeiro envelhecimento ativo.

O presente que vivemos condiciona sempre o nosso futuro.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
temas
trabalho    vida humana    reformados    pensionistas