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24-11-2013        Público [Revista 2]

Por razões familiares, tenho estado em contacto com o Super-Homem. Comprei uma miniatura nas ruas de Bogotá, que pisca do peito com uma força inusitada e tem uma bela capa vermelha. Os super-heróis já só existem em miniaturas pela rua fora. O Super-Homem foi declarado morto em 1992, mas aparentemente é agora que começa a fazer falta.

Todos os dias ouvimos dizer que não há líderes. Na Europa, na junta de freguesia, no pequeno Portugal. Enfim, de Krypton sabemos que não vem mais nenhum. Conforme se vai afastando, o século XX agiganta-se em heróis e vilões. Que sabemos quem são, têm um rosto indesmentível.

Em casos extremos de vilania, a visão raio-X e a supervelocidade resolviam o problema. Mas não podia ser assim tão simples.Para nos baralhar, a América deu-nos com uma mão os super-heróis — Frank Lloyd Wright, JFK, o Robocop — e, com a outra, os anti-heróis — Robert Venturi, Woody Allen, Andy Warhol. Podemos também seguir esta baralhação na sequência Marilyn, Madonna, Lady Gaga: um glamour heróico a transformar-se em carne viva.

Na Europa, mesmo os simples-heróis foram desaparecendo. Há uma normalidade que perturba, mas os tempos que se viveram no pós-guerra foram sendo de normalidade, e a paz duradoura suscita gente normal. Os líderes emergem em função do que existe para liderar. Este foi sendo um tempo permeável e transitório e os líderes obedeceram sendo permeáveis e transitórios.

Mesmo na América, Barack Obama, super-herói e anti-herói em acumulação, começa a ser visto como um quase líder europeu na normalidade em que se deixa apanhar. Talvez para estar à altura de todos nós. Não se confundindo, mesmo assim, com a vulgaridade não-liderante e adormecida de todos os primeiros-ministros e presidentes da Europa, ouço dizer.

A tese do “fim da história” — o triunfo da democracia liberal ocidental — que causou polémica pela mão de Francis Fukuyama, quando publicada em livro no ano da morte do Super-Homem, talvez devesse voltar a ser pensada. Mesmo com o Brasil, a Rússia, a Índia e a China. Ou principalmente por causa destes.

A história longa e cicatrizada da Europa e a democratização radical que as novas tecnologias produzem impedem a emergência de líderes heróicos. Que, de qualquer modo, precisariam de assunto para liderar.

É por isso bonita e inteligente a ideia da curta-metragem Panorama, de Francisco Ferreira e João Rosmaninho, sobre uma Lois Lane que vive no Bairro do Aleixo e trabalha no Jornal de Notícias.

O Super-Homem desapareceu e depois? Em favor da gente normal, fixemo-nos na Lois Lane; é ela que tem as melhores respostas. Por razões familiares, tenho também travado conversa com o Homem-Aranha, mas essa é outra história.


 
 
pessoas
Jorge Figueira



 
temas
super-heróis    arquitetura    Europa