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20-04-2013        Jornal de Notícias

 “Consenso” é a nova palavra mágica para a “salvação nacional”.

O Ministro Poiares Maduro, académico chegado ao governo há poucos dias, repetiu a palavra “consenso” dozes vezes na conferência de imprensa da passada quinta-feira.

Passos Coelho é chamado pela troica e pelo Presidente da República a reunir com o secretário-geral do Partido Socialista (PS) para procurar construir compromissos e consenso. Alguns grandes empresários e banqueiros, com Ricardo Salgado à cabeça afirmam, “com sentido de Estado”, a necessidade de consenso. Ferreira de Oliveira, em defesa do consenso cita um grande poeta, para convocar a emergência da “ética da responsabilidade sobre a ideologia”.

A RTP coloca a palavra consenso a encher o ecrã. Não há deputado “responsável” da direita que não reclame consenso. Muitos dos principais programas das rádios e televisões debatem afanosamente o “necessário consenso”.

Paulo Portas, em nome do consenso namora o Partido Socialista (PS), procurando engajá-lo para o imediato. E, com forte “sentido de Estado”, defendendo “o interesse nacional”, vai tentando assegurar presença no poder para o futuro. Algumas “personalidades” do PS respondem com encantamento, na perspetiva de poder estar ali a muleta para se guindarem à governação.

Aliás, no PS vária gente, incluindo ex-ministros de Sócrates – com discursos em contramão face ao que diz atualmente o seu ex-chefe – mostra gostar muito desse consenso. Uma sua ex-ministra defendia há dois dias, num programa de rádio, que é preciso “substituir a ideologia pelo pragmatismo”. Acordem! Nós estamos mesmo perante grandes problemas. Não há soluções com as políticas que nos conduziram ao descalabro.

Os denominadores comuns e compromissos indispensáveis para construir respostas a uma situação dramática, como a que o país vive, exigem identificação e exposição de programas e valores. Há que confrontar as ideologias que marcam a vida e o funcionamento das sociedades.

Aquele consenso significa, no imediato, uma operação de aprisionamento do Partido Socialista, e das suas áreas de influência, ao fatídico Memorando e às políticas de austeridade, confirmando-as como inevitáveis e, por consequência, ao fecho da 7.ª avaliação da troica, entidade que parece comandar a chantagem. No plano estratégico, procura assegurar que o PS alinhe na destruição do Estado Social, no processo de alimentar os credores e os agiotas por décadas, no ataque à Constituição da República e à soberania nacional.

O plano em curso não tem por objetivo responder aos problemas do desemprego, da pobreza, da emigração forçada, das injustiças, da ausência de um projeto de desenvolvimento do país. Visa sim manter Portugal submetido a uma brutal austeridade e empobrecimento do povo e servir os interesses de políticas europeias desastrosas.

Sem dúvida vivemos tempos de muita malvadez à solta. Há razões que até parece serem só do entendimento do diabo. Quando relatórios e figuras do FMI expressam duras condenações das políticas de austeridade que têm sido seguidas, quando surgem no mundo fortes críticas ao perigoso rumo que a Alemanha está a impor à União Europeia, quando é posta a descoberto a falsidade dos estudos científicos que sustentaram as políticas de austeridade, porquê insistir nela?

Os que defendem o dito consenso como maneira de sustentar e gerir melhor as políticas de austeridade são, em grande parte, os mesmos que mentiram sobre a origem da dívida e dos problemas do país, que encobriram roubos, que responsabilizaram o povo, que reclamaram a vinda da troica como entidade salomónica, que saudaram os roubos a trabalhadores e reformados, que justificaram políticas desastrosas, que afirmaram a austeridade como inevitável e purificadora, que endeusaram o Memorando, que caluniaram quem reclama uma honesta renegociação da dívida.

É inegável que existe hoje uma forte tensão entre a construção da esperança e o falar verdade. Mas o caminho é falar verdade. Desde logo, sobre as bases em que se pode construir a esperança, e depois, sobre os reais desafios que se colocam aos portugueses, no plano interno e no plano europeu, na decorrência da limpeza a que hão de ser sujeitas ruinosas opções estratégicas que foram seguidas.

 


 


 
 
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Manuel Carvalho da Silva



 
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