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06-04-2013        Jornal de Notícias

Já poucos têm a coragem de chamar ajuda aos empréstimos da troica. Estes empréstimos significaram apenas uma nova dívida que serviu para pagar encargos e parte da dívida velha, tornando-a ainda maior. Foram presentes envenenados. A “ajuda” consubstanciou-se em brutal austeridade que deixou os portugueses mais pobres e em piores condições, até para poderem vir a pagar a dívida.

No fim de 2007 cerca de 70% da dívida pública portuguesa era detida por bancos e outros credores não residentes, isto é, externos. Em meados de 2012 os credores externos detinham já apenas cerca de 20%. Entretanto a dívida aos credores oficiais (Fundos da União Europeia, FMI e BCE) passou de zero para cerca de 40%. Isto significa, tão-somente, que quem nos “ajudou” se tornou no principal credor.

Então, emprestaram-nos o dinheiro para quê? Para que os credores privados externos se libertassem de títulos da dívida pública portuguesa que lhes queimavam as mãos.

O que desta “ajuda”, deste “resgate”, ficará na história é simples: Portugal endividou-se junto das instituições europeias para pagar aos grandes bancos e fundos de investimento europeus. Para que estes não sofressem perdas, a União Europeia (UE) obrigou os cidadãos europeus, e os portugueses em concreto, a endividarem-se.
Estas políticas não fazem sentido, nem para Portugal, nem para os outros países da UE. Mas mostram-nos quem manda: o grande poder financeiro e a “potência” europeia, a Alemanha, cuja política e peso económico são hoje perigosamente determinantes no espaço europeu.

Costuma dizer-se que quem paga manda. Aqui a verdade é um pouco diferente: quem manda recebe. E esta exploração é-nos todos os dias justificada por tecnocratas vendidos, por políticos de pacotilha, sem palavra, sem ética, enfatuados quase ignorantes, gerados e alimentados pelos encantos (com chorudas contrapartidas) da podre e venenosa cartilha neoliberal.

O país não precisava desta “ajuda” e o povo português não merecia este empobrecimento forçado. Somos um país com história e um povo abnegado, trabalhador, capaz de construir, mobilizado coletivamente, extraordinárias mudanças e transformações como fez em 1383-1385, ou com a Revolução de Abril de 1974.
O país não precisa que se institucionalize a crise e muito menos se condenem gerações a uma vida de pobreza, sem horizontes de progresso e modernidade.

Somos europeus por natureza e por opção, mas não precisamos e não queremos esta Europa dualista, anti solidária e de humilhação, em que a Alemanha impõe o que entende ser do seu interesse e dos seus aliados próximos, mesmo que isso represente declarações de guerra, mais ou menos expressas, a povos e países de quem muito beneficiaram.

Portugal não merece o “Memorando” a que está sujeito, nem as “avaliações” da troica cujos objetivos são apenas os de criar condições para prosseguirem, pelo maior tempo possível, as políticas de roubo organizado a que nos submeteram. Há muito que estão provadas as desadequações e a injustiça do fundamental das medidas definidas ou executadas em nome do Memorando, e que é uma evidência a necessidade de uma renegociação da dívida, no que diz respeito, nomeadamente, a montantes, condições, prazos e juros a pagar.

Os portugueses não merecem que prossigam políticas de imposição de salários cada vez mais baixos, quando existe uma consciência coletiva, partilhada também por grande parte dos empresários, quanto à melhoria do poder de compra e à atualização do Salário Mínimo Nacional.

O país não merece que face ao apodrecimento do governo, alguns “institucionalistas” de direita assustem o povo com o perigo da crise política que resultaria da demissão do governo, quando a continuação do governo em funções é a efetiva crise. O governo sofre de septicemia, não tem cura através do ato de lancetar o abcesso Relvas.

Hoje, como em 1383-1385, grande parte dos “fidalgos”, dos “líderes” e dos detentores do poder, estão do lado de “Castela” e não com o povo português. Os que estão com os interesses e anseios dos portugueses – e ainda há bastantes – têm de procurar, com “velhas” e novas forças e projetos, assumir a construção de um novo rumo e mobilização coletiva. Os portugueses merecem e vão encontrar futuro.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
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