O Ramal da Lousã foi abandonado há exatamente dezasseis anos e dez meses. As populações da Região de Coimbra tinham acabado de perder uma infraestrutura de transporte público centenária. De seguida, os carris forram arrancados, as sulipas foram desbaratadas, e a indignação foi mordaz, mas discreta, como sempre em Coimbra. Calhou-nos o pior das chamadas Décadas de Desinvestimento na Ferrovia. O desespero foi sendo alimentado pelo engodo mirífico de um Metro Ligeiro sobre carris, anos e anos a fio sem quaisquer consequências. Perante essa devassa, veio, desta feita mais fundamentada, a esperança de um tipo de transporte diferente, internacionalmente designado por BRT, acrónimo de Bus Rapid Transit. Em Portugal, foi designado por “Metro Bus”.
Como era de esperar, a sua entrada em funcionamento foi entusiástica, foi de fazer esquecer as agruras de quase duas décadas de raiva surda e desespero. Foi de tal ordem que agora já toda a gente quer o “Metro” à porta de casa. Ainda Bem!
Mas, por favor, nesta justificada ânsia de tudo resolver com o BRT, não nos esqueçamos que as soluções de transporte não são indiscriminadamente replicáveis.
As extensões para Condeixa, ou até para Penela, fazem todo o sentido, as urbanas para o Polo 2 também. Mas o mesmo não acontece com Cantanhede, com a Mealhada, ou com a Figueira. Porquê?
Existe um Plano Ferroviário Nacional aprovado. Ao contrário das acéfalas intenções políticas de há dezasseis anos atrás, esse plano privilegia as infraestruturas ferroviárias existentes, a sua modernização e o seu desenvolvimento. Nesse sentido, está prevista para Coimbra a recuperação, eletrificação e capacitação dos trajetos Figueira da Foz – Coimbra B – Pampilhosa – Cantanhede, para poder receber composições do tipo suburbano, com serviços pendulares entre a Figueira e Cantanhede, passagem por Coimbra B, e serviço de todas as estações e apeadeiros no percurso. Não é um desígnio utópico, é algo que só necessita de intervenções pontuais e vontade política para ser executado. Como é bom de ver, a sua velocidade e a sua capacidade de carga são muito superiores à do designado “Metro Bus”. A quadruplicação das linhas entre Taveiro e Coimbra faz parte dessa estratégia mais vasta. Neste eixo, deveríamos estar a reivindicar a sua capacitação para entrar em funcionamento o mais rápido possível.
O transporte ferroviário é mais rápido e, sobretudo, muito mais resiliente que o “Metro Bus”, um eixo ferroviário inter-urbano entre a Figueira da Foz, Coimbra B, Mealhada e Cantanhede, com serviço regular e fiável, seria uma conquista muito mais futurante que qualquer trajeto rodoviário, mesmo se em faixa dedicada.
Não devíamos andar a “projetar” o “Metro Bus” para todo o lado, sob pena de nos acontecer o mesmo que há duas décadas atrás. Toda a gente quer o que vê à frente e depois, fica sem nada... Já nos esquecemos do que chorámos quando o Ramal da Lousã foi barbaramente desativado?