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19-05-2026        Expresso

Apesar da sua significante contribuição para o mercado laboral e para a segurança social de Portugal, imigrantes sul-asiáticos são frequentemente retratados como um fardo e uma ameaça à coesão social.

Nos últimos anos, imigrantes sul-asiáticos — principalmente vindos da Índia, Nepal, Bangladesh e Paquistão — tornaram-se o ponto focal da hostilidade social e política de Portugal. Ainda que sejam uma minoria numérica, eles assumiram uma larga presença no discurso político, em particular durante as eleições nacionais.

Essa comunidade emergiu como um alvo conveniente para segmentos da direita política, especialmente os apoiantes do Chega, cuja retórica, com frequência, enquadra imigrantes enquanto ameaças à identidade nacional, estabilidade económica e segurança pública. As manifestações do referido partido tomaram lugar em diversos lugares, desde feiras educacionais a festivais muçulmanos, o que, crescentemente, tem gerado uma crise de direitos para imigrantes sul-asiáticos.

A escolha do alvo não é acidental. Ela reflete um padrão mais alargado, pelo qual grupos visivelmente distintos e economicamente vulneráveis são projetados como "intrusos", ou "forasteiros".

Imigrantes sul-asiáticos, muitas vezes percebidos como culturalmente distintos e vindos de países menos afluentes, são especialmente vulneráveis a este tipo de narrativa. A sua posição marginalizada torna-os num fácil bode expiatório em tempos de incerteza económica e polarização política. Há muito, Portugal orgulha-se de uma imagem de tolerância e abertura. Contudo, atitudes xenofóbicas e racializantes — historicamente silenciadas — parecem agora reemergir à superfície do discurso político contemporâneo. No clima político atual, esses sentimentos não mais se confinam às raias do discurso público, pelo contrário, têm sido normalizados de forma crescente.

Apesar da sua significante contribuição para o mercado laboral e para a segurança social de Portugal, imigrantes sul-asiáticos são frequentemente retratados como um fardo e uma ameaça à coesão social. Representantes da direita amplificaram afirmações erróneas segundo as quais essas comunidades exploram o sistema de segurança social e contribuem desproporcionalmente para as estatísticas criminais. Tais narrativas não são fundadas na evidência empírica, mas ganham tração através da sua repetição nas redes sociais, onde se espalham com velocidade.

O resultado é um ciclo de retroalimentação: A retórica joga gasóleo na fogueira do preconceito público, o que, por seu turno, legitima políticas de exclusão subsequentes. Os espaços online refletem vividamente essa hostilidade — as secções de comentários nos artigos de jornal que referem imigrantes são, com frequência, saturadas de um discurso xenofóbico que revela quão profundamente penetram essas narrativas na consciência pública.

Ao contrário do que é dito, imigrantes sul-asiáticos não estão a "roubar trabalhos" ou a “sugar” recursos públicos. Pelo contrário, formam um segmento crucial da força laboral de Portugal. Eles estão desproporcionalmente representados em setores como a agricultura, a construção civil e aplicativos de transporte e entrega – áreas caracterizadas por trabalho físico exigente, baixos salários e baixa mobilidade social ascendente. Esses papéis são essenciais à sustentação da economia portuguesa, que já enfrenta um contexto de envelhecimento populacional e baixa laboral. Sim, aquele mesmo trabalhador que sustenta esses setores é aquele que permanece invisível e politicamente marginalizado.

A sua contribuição não é reconhecida, seja pelo discurso público, seja por políticas de Estado. Enquadrar imigrantes como "o outro" reforça um binário perigoso: uma distinção moral entre um supostamente virtuoso "nós", contra um "eles" ameaçador. Tais narrativas arriscam aprofundar divisões étnicas e religiosas que, potencialmente, podem levar à fragmentação social de longo prazo, como a que podemos ver na Índia, onde a vilanização de minorias religiosas tem levado à morte a democracia secular.

As consequências dessa retórica não permanecem no mundo digital. Ainda que o discurso de ódio online seja sua mais visível manifestação, há crescente preocupação acerca da sua tradução em violência física e preconceito institucional. Relatos de assédio, discriminação no trabalho e hostilidade em espaços públicos sugerem um clima mais geral de exclusão.

As instituições não estão imunes a esse processo. A agência de imigração portuguesa, AIMA, enfrenta críticas por humilhar imigrantes por não falarem português, além de práticas administrativas que ferem especialmente requerentes sul-asiáticos. Muitos imigrantes encontram-se presos numa prolongada incerteza legal, incapazes de regularizarem-se, ainda que preencham todos os requisitos para tal.

Um acontecimento importante nesta narrativa foi a operação policial em Martim Moniz, uma vizinhança multicultural de Lisboa. Conduzida sob a governação de Luís Montenegro, a intervenção policial foi, em larga medida, percebida como desproporcionalmente direcionada a comunidades imigrantes, em particular sul-asiáticas. O espetáculo da operação — generosamente publicitada e enquadrada na linguagem da segurança pública — contribuiu para a designação dos imigrantes sul-asiáticos como "inimigos nacionais".

Tais ações, não reforçam apenas o medo público, como também legitimam atitudes discriminatórias. Quando instituições do Estado parecem alvejar especialmente certas comunidades, elas enviam uma mensagem poderosa sobre quem pertence ou não à esfera pública.

A mudança do tom político também se traduziu em propostas legislativas. Esforços para tornar mais estritas as leis de nacionalidade e restringir as possibilidades de imigração afetam, de modo desproporcional, migrantes sul-asiáticos, muitos dos quais já enfrentam outras barreiras estruturais. Essas mudanças arriscam-se à institucionalização da desigualdade, colocando certos grupos em desvantagem sistêmica comparados com outros requerentes, em especial aqueles de origem europeia. Ao mesmo tempo, as realidades burocráticas — como as longas filas, as marcações postergadas, a processualidade inconsistente — exacerbam ainda mais a vulnerabilidade das populações imigrantes. Ainda que esses problemas afetem todas elas, o seu impacto é, muitas vezes, mais severo naqueles com menos recursos e menor capital social.

Contudo, é importante notar que esse clima hostil estende-se para além de trabalhadores e trabalhadoras com baixos salários. Estudantes sul-asiáticos relatam experiências de exclusão e discriminação na universidade portuguesa. Essa tendência levanta sérias preocupações em torno da reputação internacional de Portugal enquanto um destino viável para estudos universitários e mão-de-obra qualificada. Se não resolvidos, tais desenvolvimentos podem prejudicar a habilidade de Portugal em atrair talentos globais, o que em, último caso, prejudicará sua economia e sua vitalidade intelectual.

A atual onda de hostilidades anti-imigrante carrega uma profunda ironia histórica.

Portugal tem uma longa história de emigração. Durante o século XX, muitos cidadãos e cidadãs portugueses migraram para países como a França e os Estados Unidos, à procura de melhores oportunidades económicas, ou para escapar do regime autoritário do Estado Novo. Essa herança migrante é central para a identidade nacional de Portugal. Adotar agora atitudes excludentes em relação a quem chega é ignorar um aspecto fundamental do passado deste país.

Quando transformamos imigrantes sul-asiáticos em alvos, não se trata apenas de retórica política; isso reflete tensões mais profundas da sociedade, em torno de questões como identidade nacional, pertencimento e mudança económica. Ainda que essenciais ao equilíbrio econômico e demográfico do país, imigrantes sul-asiáticos permanecem sendo vulnerabilizados e excluídos.

Se Portugal quer defender os valores democráticos e sua reputação internacional, ele deve resistir à normalização da xenofobia e reafirmar seu compromisso com a inclusividade. Isso requer não apenas reformas legislativas, como também um mais alargado esforço societal na luta contra a desinformação e pelo o reconhecimento da dignidade e contribuição de todas as pessoas que chamem a Portugal de lar.


Traduzido por Pedro Safara

 


 
 
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