Quando me desloco a pé em Coimbra, o que não é raro, crio percursos de redescoberta e mantenho com perseverança os mais regulares, aqueles quase quotidianos. Destes últimos, o que é, sem dúvida, mais persistente, integra sempre o atravessamento do Parque de Santa Cruz, ou Jardim da Sereia, como quiserem.
Sem que quase ninguém desse conta, isto falando no plano mediático, claro está, a Sereia sofreu uma devastação intensa com a Kristin, a tempestade que assolou esta região no final de Janeiro último. Ventos muito violentos, a velocidades muito altas, que fizeram vergar milhares de árvores em toda a região, como bem sabemos. A Sereia ainda não se recompôs.
Recentemente li neste mesmo jornal que já havia um orçamento para a sua reabilitação. Ainda bem que assim é e, como não podia deixar de ser, as entidades responsáveis estão a tomar medidas para mitigar os efeitos catastróficos no parque. É, portanto, uma atitude de louvar, sem a menor dúvida. Gostava, no entanto, de deixar aqui expressas duas ou três preocupações a esse propósito.
O Jardim da Sereia não é uma “zona verde”, como sói dizer-se nos jargões do planeamento urbano e territorial, é um parque urbano que constitui um património riquíssimo, único sob determinados aspetos históricos e culturais. Foi o jardim de recreio dos Agostinhos de Santa Cruz, daí o seu nome. Com o liberalismo de há dois séculos atrás e, sobretudo, com a extinção das ordens religiosas masculinas, passou para o domínio público. Aquilo que era um jardim e um bosquete lúdico para utilização restrita dos cónegos regrantes, passou para o domínio público, passou para a fórmula que nos permite a todos, sem exceção, utilizá-lo e fruí-lo com um prazer esporádico ou com uma satisfação frequente, como é o meu caso. No início do século passado, viu-se completamente envolvido pela cidade.
Ao longo desta sua condição pública, alguns golpes baixos sofreu, é a vida… os mais graves, em meu entender, foram o campo de futebol, que subverteu a sagrada simetria tardo-barroca, e, mais tarde, o modo descuidado e desgarrado como foi tratada a frente nascente, ao longo da Rua Pedro Monteiro. Mas adiante, aguentou como pode esses golpes, tem uma história riquíssima e eu, que o utilizo e utilizei ao longo da vida, desde criança, sinto-me no direito de o considerar um dos mais belos parques urbanos do Mundo.
Penso por isso que, embora a pressa da reabilitação seja justificada face à gravidade da ocorrência, se deveria parar e pensar um pouco mais no assunto. Esta é uma obra que não devia estar primariamente circunscrita às duas condições, exclusivas e simplistas, que conformam as obras públicas no Portugal contemporâneo: a pressa e o preço. Esse é um canto de sereia que, no caso da Sereia, pode acabar menos bem.
O que é que eu quero dizer com isto? É muito simples, Antes da Kristin, o Jardim da Sereia já não estava nas melhores condições. Os pavimentos em acelerada degradação, os elementos barrocos, muros, coruchéus, azulejaria, não lhes ficam atrás. As magníficas peças escultóricas de Rui Chafes sistemática e grosseiramente vandalizadas. Há serviços de manutenção genérica que vão sendo periodicamente cumpridos, sim, claro. Mas dado o seu valor intrínseco, merecia bem mais do que isso. Merecia o melhor. E o melhor seria, na minha modesta opinião, um projeto paisagístico-patrimonial que o soubesse reerguer até à dignidade da sua condição cultural, sem descurar o seu uso contemporâneo. Como?
Portugal tem, reconhecidamente, dos/as melhores paisagistas, de nível internacional, um concurso de projetos para a reabilitação contemporânea da Sereia poderia ser um ótimo começo. Penso que teríamos as capacidades adequadas para uma reabilitação que pudesse enaltecer o seu significado histórico e cultural, adaptando-o simultaneamente aos desafios da contemporaneidade. Mas eu já me dava por satisfeito se não ficássemos, uma vez mais, embevecidos pelo canto da sereia.