Por afazeres profissionais, passei a última destas semanas “terribiles” fora de Coimbra. Na verdade, fora do país. Quando saí, tinha o meu bem-amado local de trabalho destruído, praticamente impossível de re-habitar, tal como ficou. Assim que me ausentei, a tempestade, com os seus sucessivos heterónimos, intensificou-se e tomou conta da cidade e da região. Deixou um rasto de destruição como já não havia memória.
Fui-me inteirando dos acontecimentos à distância, ora através das descrições de amigos e familiares, ora pelas muitas notícias que se centravam essencialmente sobre a cidade e sobre toda a região afetada. Sofri convosco ao ver as imagens, mas não sofri como os desalojados, nem como todos/as aqueles/as que desesperadamente tentavam salvar-se, tentando também salvar os seus pertences. Poder-vos-ia falar da minha solidariedade, mas não o faço porque a solidariedade é angustiante quando não é presencial. Mas quero aqui humildemente agradecer a todas e todos os responsáveis pela proteção dessas mesmas pessoas e bens que incansável e profissionalmente agiram ao longo dos piores momentos, que se sacrificaram pelo bem-estar público, que se empenharam em ajudar quem de ajuda necessitava. E fizeram-no por puro sentido humanitário, por dever humanitário. É isso precisamente que se chama “empatia”, uma expressão infelizmente tão vilipendiada nos dias que correm.
Salvo uma ou outra “gaffe”, que já achamos natural, ou não estivéssemos numa região tradicionalmente marginalizada, pertencente a um “Interior” mítico e a essa condição condenada, a imagem que ficou das personalidades políticas, locais e nacionais, que vieram ou estiveram no centro das ocorrências, foi uma imagem de preocupação e de sobriedade, uma imagem determinada em coordenar a resolução dos muitos problemas que constantemente surgiam no terreno. Mas foi, acima de tudo, uma imagem de responsabilidade, de serenidade e de confiança. É óbvio que era essa a imagem que delas esperávamos, mas não podemos deixar de a enaltecer, com clara relevância para o papel desempenhado pela Senhora Presidente da Câmara de Coimbra. Não seria justo, a este propósito, não relevar aqui o seu papel na gestão das decisões que se impunham, com uma determinação que enfrentava a intensidade da precipitação atmosférica que assolava a região.
Agora, há que reerguer tudo novamente, há que definir prioridades e garantir a prosperidade futura. Há que pensar racionalmente nas formas de evitar novas catástrofes, debatê-las, planeá-las, projetá-las, orçamentá-las, e pôr em marcha a sua execução. De modo refletido, mas firme e determinado. Vai ter de ser uma execução cabal. Nestes casos, não há resoluções de meias-tintas, sobretudo não pode haver o clássico “p’ra quem é, bacalhau basta”.
A barragem de Girabolhos já era necessária há muito tempo. Mas precisa de ser complementada com uma gestão racionalizada das margens e das pendentes, as do Mondego, claro, mas também as do Dão, do Alva, do Ceira, e do Arunca. Gestão aqui implicará muitas coisas, implica sobretudo uma arborização autóctone, onde não tem lugar o negócio dos eucaliptos.
O catastrofismo alarmista, por mais eco-fashionable que pareça, não é solução para nada. Mais, pode mesmo ser destruidor, ou inibidor de soluções. Os sucessivos “eu bem vos avisei” também não são recomendáveis. Não podemos ficar novamente reféns de determinismos de base mítica. Para evitar catástrofes futuras, o que tiver de ser feito tem mesmo de ser feito.
E a cidade, a manutenção do papel ecológico, cultural e político da cidade, não é, não pode ser uma variável nestas decisões futuras. É um objetivo primordial, é uma obrigação que temos de colocar no centro das resoluções que advierem de todas essas reflexões. Depois de garantir a segurança infraestrutural, a cidade e a sua milenar condição urbana têm de ficar no centro das preocupações. No sentido de se reerguer, de dar a volta por cima, de voltar ao papel que lhe compete no difícil momento por que passam as sociedades contemporâneas. E eu, pessoalmente, tenho esperança que haja quem possa estar à altura desta difícil empresa.
Temos mesmo de dar a volta por cima.