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07-02-2026        Jornal de Notícias

O ideal de sociedades de paz, respeitadoras das liberdades, dos direitos fundamentais de todos os seres humanos e dos recursos do planeta, sustentadas pela crescente capacidade científica e tecnológica e por trabalho mais criativo e gerador de maior riqueza, para servir o bem comum, está a esfumar-se aceleradamente.

O não respeito pela natureza, o primado do lucro despido de responsabilidade social e as contaminações que afetam o exercício da política estão entre as causas fundamentais deste descambar. A tragédia que estamos a viver, decorrente das tempestades que se abateram sobre grande parte do nosso país, provam-no inequivocamente. Vejamos alguns factos.

Primeiro, existe uma dimensão nova de risco e de destruição resultante da frequência e violência dos impactos destes fenómenos que, tudo indica, tenderão a agravar-se. Isso significa que temos de levar muito a sério as alterações climáticas e ambientais. E não o temos feito.

Segundo, conhecemos uma causa dos problemas que é velha: o planeamento territorial foi colocado em absoluta fase de relaxe. Nas primeiras décadas da nossa democracia planificou-se muito (em geral bem) para sustentar o avanço de governações autárquicas modernas, ou para a estruturação dos serviços que prestam os nossos direitos fundamentais. Mas nas últimas décadas, os governos desinvestiram em estruturas e meios e colocaram na esfera do privado atividades que, podendo dar ou não lucro, têm por missão servir o bem comum.

Terceiro, evidenciou-se a baixíssima qualidade do nosso Governo. Teve um atraso clamoroso na sua reação e na de estruturas que tutela; substituiu a comunicação pela propaganda; não entende o que é solidariedade e cidadania social. Há um quase consenso nacional de que apenas uma ministra se salvou. O primeiro-ministro só veio à superfície depois de muito insuflado. O ministro da Defesa levou militares para a montagem e desmontagem de uma tenda, apenas para encenar que estava no terreno. O ministro Leitão Amaro produziu um vídeo inqualificável, demonstrando ser um manipulador que pouco apego terá à democracia. Outros ministros e ministras demonstraram não possuir um mínimo de cultura política. Ora, esses atos e declarações desastrosas não são acasos. Sustentam-se em conceções estruturadas sobre a sociedade. O retrato é, pois, mau demais.

Quarto, dado que o fraco perfil de especialização da nossa economia destruiu profissões indispensáveis para a reparação daquilo que foi danificado - e também para termos indústria e atividades de significativo valor acrescentado no país - o fundamental do trabalho a fazer está dependente da chegada de milhares de imigrantes dispostos a serem maltratados e a ganharem mal.

Neste quadro, relembremos que é preciso compromissos sérios para defender o emprego e os direitos laborais, e que os recursos da Segurança Social são dos trabalhadores.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
temas
clima    planeamento    governação