Perante a dispersão de votos que se verificou na primeira volta das eleições para presidente da República, e face aos programas e caraterísticas dos dois candidatos que disputam a segunda volta, generaliza-se a ideia de que muitos eleitores não encontram motivação para votar, ou que votarão "meramente" contra o candidato que repudiam.
A democracia não sobrevive se os democratas, de todas as sensibilidades, não a defenderem em todos os espaços e momentos. Hoje, no contexto político nacional, europeu e internacional, é bem claro que as diversas forças antidemocráticas, ultraconservadoras e fascistas, estão mobilizadíssimas para matar a democracia por dentro. Em Portugal, é esse objetivo que tentarão alcançar no próximo dia 8 de fevereiro: não desperdiçarão nenhum voto.
A democracia é uma forma de organização e de vida das sociedades humanas, e sabemos bem que a morte não é, no plano físico, uma suspensão transitória da vida. Ser antidemocrata é defender o grau zero da democracia. Sempre que, em contextos de acumulação de contradições e bloqueios, foram experimentados caminhos de respostas pretensamente simples e fáceis, seguindo a pregação de falsos profetas, os resultados foram desastrosos. As ditaduras podem entrar pela via democrática, mas rapidamente bloqueiam as sociedades e só se arredam do poder depois de muito sofrimento.
É preciso que os democratas, de todas as sensibilidades, compareçam nas urnas votando pelo regime democrático. E só um dos candidatos assume o compromisso de o respeitar - António José Seguro. O seu programa é insuficiente ou titubeante em algumas áreas, mas não podemos esquecer que a Constituição da República é o compromisso/ancoradouro que sustentou o muito de bom que os portugueses conquistaram nestes 52 anos de democracia. Afirmemos esse facto sem a mínima hesitação, pois quem o nega mente descaradamente.
Não pode haver complacência com velhas ou novas formas de fascismo, nem com conceções reacionárias que desconstroem direitos humanos. Há que dar combate, sem tréguas, a formas de exploração assentes em discriminações em função da raça, da cor da pele, da língua, da nacionalidade, do sexo ou género. Não podemos aceitar a "liberdade" de exploração do homem pelo homem.
Com frontalidade há que dar combate a perceções manipuladas construídas a partir de mentiras e de realidades pontuais desviantes. Os líderes fascistas também diziam, no século passado, que uma mentira mil vezes repetida se transformava em verdade. A novidade na sociedade de hoje é que há novos espaços e formas poderosas de construir e difundir mentiras.
O trumpismo, que em Portugal também tem um candidato a presidente da República, mostra-nos que a sua força vem da conjugação de ressentimentos (internos e externos) entrelaçados com manipulações sem escrúpulos, ganância desmedida, fanfarronice e muita cobardia. Denunciados com frontalidade encolhem-se. É isso que temos de fazer a 8 de fevereiro e depois.