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21-01-2026        As Beiras

Foi há seis décadas e meia que uma jornalista de origem alemã se deslocou dos Estados Unidos, onde vivia refugiada, até Jerusalém, para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, um dos mais convictos responsáveis pelo genocídio de milhões de pessoas, que assolou a Alemanha Nazi entre 1933 e 1945. A jornalista chamava-se Hannah Arendt e estava a trabalhar para a revista The New Yorker.

Do depoimento do réu Eichmann não se depreendia a figura de um fanático sanguinário, de um assassino compulsivo ou de um símbolo do “mal absoluto”, porque assentava numa simples e cândida alegação: só cumpria ordens. Tão convincente foi esse depoimento que Arendt, que também era filósofa, se viu impelida a repensar a natureza do mal que assolou a Alemanha e o mundo. Um mal que, não sendo trivial ou insignificante, pode levar a que uma inteira sociedade o banalize e o pratique, sem sequer parar para pensar. Chamou-lhe então a banalização do mal.

Naquele tempo, nos Estados Unidos, ainda se fomentava uma coisa chamada liberdade de de expressão que, com todos os seus defeitos e desvios, e eram bastantes, conseguia a custo que uma grande maioria de pessoas pensasse, um pouco que fosse, antes de aderir acriticamente a qualquer prática política instituída e difundida por motivos perversos.

Ainda há alguns anos atrás, nos meios de comunicação de massas, era possível pressentir uma certa ética social que penalizava a mentira. Se uma qualquer personalidade pública mentia ou derrapava nalguma incoerência retórica, com as personalidades políticas na linha da frente, era imediatamente punida e condenada pela então chamada “opinião pública”, por vezes mesmo violentamente, sem apelo nem agravo.
Hoje em dia, os políticos mais mediáticos do planeta dão o dito por não dito num abrir e fechar de olhos e ainda culpam e demonizam quem os acuse de serem mentirosos. A mentira instituiu-se e difundiu-se por todo o espectro social e comunicacional, que é infinitamente maior que o daqueles anos. E mesmo os escombros que restam dos antigos meios de comunicação de massas, se não praticam despudoradamente a mentira, pelo menos projetam-na e ampliam-na acriticamente até à exaustão. A mentira banalizou-se a tal ponto que já ninguém a sente. E, mais grave do que isso, ninguém já parece preocupar-se com o fenómeno. Quando muito, chamam-lhe eufemisticamente “desinformação”. Pois é, a dita desinformação corresponde a cerca de 90% de toda a propaganda dimanada da segunda força política nacional.

O tema das minhas crónicas é pensar a cidade e o território. O que é que tudo isto tem a ver com esse tema? Pois bem, basta olhar para os mapas eleitorais. Não é preciso ser doutorado em geografia para se perceber onde os efeitos dessa “desinformação” estão mais presentes. É em todos os recantos que o liberalismo ultrarradical das últimas décadas votou ao abandono institucional, sobretudo ao abandono da vida cívica, mas também ao abandono educativo e cultural. É esse o resultado. Continuem assim, que vão em “bom caminho”.
A banalização da mentira conduz diretamente à banalização do mal. Estamos a caminhar alegremente para lá. E ao contrário do que diz muita “boa gente”, as próximas eleições presidenciais não são entre liberais e socialistas, não são entre esquerda e direita, não são entre populistas e elitistas. São entre o pensamento livre e a banalização da mentira, são ente a opção patriótica de integração numa Europa ainda democrática e a submissão acéfala aos principais empórios tecnológicos, ao serviço de quem está o atual governo federal da mais influente nação do planeta. É essa bajulatória submissão que praticam todos aqueles que, no Parlamento Europeu, se autointitulam “patriotas”. A Gronelândia tem servido e continua a servir para humilharem a Europa. Depois da Gronelândia, e a talho de foice, poderão vir os Açores. E nessa altura, aposto que os nossos “patriotas” antieuropeus rejubilarão de alegria, só porque o seu patrão e amigo americano comprou a ilha Terceira por um punhado de dólares e recebeu como bónus a totalidade do arquipélago.

As atrocidades da guerra também se banalizaram, na Ucrânia, em Gaza, na Somália, no Iémen. O prémio Nobel da Paz anda a saltar de mão em mão, como numa rifa de paróquia, para desbocada chacota dos gajos da guerra. Não, não são senhores, não têm o mínimo de dignidade para o serem. Em suma, as próximas eleições presidenciais são também entre a decência democrática e o caos, aquele caos que será a antecâmara da guerra generalizada.

Mais do que nunca, é hoje necessário pensar por sua própria cabeça, pensar para além do estafado discurso se ódio, pensar para além do filme bacoco e prosaicamente repetido de cinco em cinco segundos, pensar é uma atitude indispensável a toda a gente, quer aos que ditam as ordens, quer aos que as cumprem. É necessário saber pensar. Ora, são precisamente as bases éticas desse pensamento necessário que eles tentam obsessivamente destruir através do sistema da mentira programada.


 
 
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José António Bandeirinha



 
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