Quando eu era criança, a minha mãe incentivava-me a escrever uma carta ao Menino Jesus, para inventariar os meus desejos de Natal. Eu assim fazia, munia-me das minhas insípidas capacidades retóricas e disparava os pedidos das coisas que mais me tinham chamado a atenção no último périplo pela Rua Adelino Veiga, então repleta de vida, de luzes natalícias e, sobretudo, de lojas de brinquedos que, na altura, se chamavam bazares.
Era uma rua movimentada pelas muitas pessoas que saiam da Estação Nova e se espalhavam pelo centro da cidade. Quanto à carta de Natal, às vezes resultava, outras vezes era um pouco ao lado, outras vezes ainda o inventário era substancialmente reduzido. Mas valia sempre a pena, embora curiosamente a alma ainda fosse pequena. Mais tarde, bastante mais tarde, as crianças começaram a endereçar este tipo de missivas a um outro destinatário, alegre, rechonchudo e bonacheirão, munido de uma outra logística, mais eficaz, dada a sponsorização da Coca Cola. Com o Pai Natal era outra coisa, os procedimentos foram ficando mais sofisticados e sistematizados. Mas a essência do ritual foi-se mantendo até hoje. Não faltará muito tempo até que a IA, em estreita cooperação com os empórios de vendas online, arranje forma de mobilizar um exército de motoretas, trotinetes e bicicletas, maioritariamente conduzidas por imigrantes sem direito a reagrupamento familiar, que entram pelas consoadas adentro e satisfazem os desejos das crianças dos outros. Claro está que os lares mais abastados terão direito a drones, que despejam tubos coloridos nas chaminés, assim transformadas em autênticos bezidróglios natalícios. É então, nesse preciso momento, que começam as saudades do velhote da Coca Cola.
Mas adiante, neste Natal quero compartilhar convosco a minha carta de desejos natalícios. Com tanta mudança, porém, já não consigo perceber quem poderá ser mais responsável pela sua receção e, sobretudo, por lhe dar o seguimento que é devido. Optei então por um endereço mais aberto, mais genérico e, como tal, não tão polido. Espero sinceramente que quem cumpre atualmente essa função, essencial e maravilhosa, não me leve a mal.
O Senhor Ministro das Infraestruturas e Habitação, veio recentemente a público anunciar que o segundo concurso para a linha de alta velocidade ferroviária, entre Oiã e Taveiro, vai ser lançado dentro de poucos dias. Já tinha dito isso no início do Verão e foi até hoje. Se não for agora, parece que vai ser no início do próximo Verão. Deve haver alguma disposição cósmica que preconiza que os concursos internacionais de alta velocidade só podem ser lançados em período solsticial. Portanto, já sabemos, se não for agora, só em Junho próximo.
O meu desejo é então muito simples: que seja lançado o concurso de alta velocidade entre Oiã e Taveiro ainda durante a vigência deste solstício de Dezembro. Mas também que haja concorrentes internacionais. Sem querer generalizar, o último consórcio, inteiramente nacional, desvalorizou e desqualificou a passagem da alta velocidade por Coimbra e esse incumprimento do caderno de Encargos atrasou o processo mais de um ano. Mais rápido teria sido o seguimento se o concurso tivesse ficado vazio. Finalmente, mas não menos importante, desejo que o Plano de Pormenor da Estação Intermodal de Coimbra seja tido em conta como parte integrante das propostas dos concorrentes, sobretudo da vencedora.
Coimbra tem uma porta ferroviária miserável: Coimbra Bifurcação. Para quem não sabe, é daí que vem o B. Desde que foi abusivamente levantada a linha da Lousã, a Estação Nova perdeu uma grande parte do seu movimento, a distância era curta, a cidade cresceu até perto da bifurcação, não era muito compensatório ir até ao Largo das Ameias. Hoje, com a entrada em funcionamento do Metrobus, isso é passado. Hoje há que fazer o centro da cidade crescer até uma nova Estação Central, que seja também um centro agregador da mobilidade regional, nacional e internacional. É isso que faz o plano, já referendado e aprovado. O meu desejo é, portanto, que não se perca mais tempo.
Mas isto não é um inventário de desejos, o desejo é só um, que contemple todas as premissas do caderno de encargos. Se tem a ambição de se insinuar no plano internacional, Coimbra não se pode contentar com meias soluções, ou com soluções de meia tijela, sob pena de, entre outras consequências graves, eu deixar de acreditar. Não no Pai Natal, mas nesta cidade.
Para além disso, desejo sinceramente a todas as pessoas que me leem umas festas muito felizes.