O tema das praxes estudantis pode até parecer esgotado e merecer o desinteresse da opinião pública e publicada. Com efeito, há décadas (sobretudo desde o caso das mortes na praia do Meco em 2013) que o tema tem sido objeto de atenção e estudo (veja-se, Teixeira Lopes e outros, Caloiros e Doutores, 2018) e até algumas tentativas de regulação e controlo por parte das universidades. Os comportamentos gregários e tribais da atual juventude estudantil persistem em deixar-se confundir com a naturalização dos abusos: autoritarismo, sexismo, marialvismo, conservadorismo são algumas das formas de abuso de poder e de violência simbólica que se perpetuam entre as sucessivas gerações de jovens que ingressam nas universidades portuguesas.
No caso da Universidade de Coimbra (UC), que está na origem destes rituais académicos, as débeis medidas de contenção adotadas por algumas faculdades revelam-se até agora impotentes, senão mesmo inócuas, para debelar um fenómeno que, nos seus atuais contornos constitui, a diversos títulos, uma perigosa perversão da cultura estudantil e até das próprias tradições académicas. De resto, a atitude de anuência por parte da UC não é alheia a toda uma mentalidade juvenil onde predominam o consumismo e a alienação. Em Coimbra a força dos patrocinadores de cerveja, por exemplo, é mais importante do que a força das ideias para a eleição de uma dada candidatura para as estruturas dirigentes do associativismo.
Por estes dias, quem se passeie pelos jardins da cidade pode assistir ao triste espetáculo de grupos de jovens “caloiros”, de ambos os sexos, perfilados em modo de formatura paramilitar, e a gritar as mais incríveis obscenidades sob o comando dos seus colegas mais “velhos” (os que têm pelo menos duas matrículas) que lhes berram ordens e os/as obrigam a manter-se de olhos no chão ou a rastejar ou a andar de quatro ou a mergulhar no lago, etc. No Jardim da Sereia, no Jardim Botânico ou no Parque Verde da cidade, é vê-los, eles e elas, numa berraria descontrolada, a despejar baldes de água ou até mesmo cervejas pela cabeça abaixo dos caloiros, dando corpo ao que podemos considerar um autêntico viveiro de imbecilização dos e das imberbes estudantes, onde o que mais se glorifica é o culto do autoritarismo e consequentemente do servilismo perante o poder do mais velho. Tudo isto é justificado ao abrigo de uma alegada “tradição”, a qual desconhecem em absoluto.
Há razões sociológicas e sociopolíticas que nos podem ajudar a compreender a persistência destes comportamentos e também as suas implicações corrosivas de uma cultura democrática e de cidadania ativa. No contexto de Coimbra, considero que existem duas lógicas que funcionam complementarmente como mecanismos que concorrem para perpetuar as praxes e o abastardar dos comportamentos. Uma dessas lógicas deriva da cumplicidade entre os rituais da praxe e as estruturas associativas da AAC. Isto porque os alinhamentos em torno de listas candidatas a núcleos ou à própria DG são largamente alimentados a partir das afinidades que se desenrolam no âmbito das praxes, da seleção dos “padrinhos” e “madrinhas” e consequentes laços tutelares que aí se iniciam. Os chamados “sindicatos de voto” onde o potencial candidato vai estruturando a sua rede de seguidores começam aí a ganhar forma e isso constitui o gérmen de uma possível candidatura ou quiçá uma vitória nas eleições de núcleo. Creio que, ao contrário do que acontecia há algumas décadas atrás, hoje em dia já não são os partidos tradicionais e as suas “jotas” que manobram nesse mundo de “recrutamento” de futuros fiéis. E como as opções ou o debate ideológico se extinguiram entre a juventude estudantil, os valores morais, a ausência de consciência cívica e o culto da reverência para com o “chefe” que são propagados nesses meios geraram um caldo de cultura onde floresce – no plano do subconsciente, é claro – o ethos populista, favorável ao crescimento da extrema-direita. Não devemos por isso admirar-nos que as bases sociais de apoio ao partido de André Ventura se expandam mais rapidamente entre a juventude.
A outra conivência associada a esta, ajuda-nos a explicar porquê o governo da universidade tem feito tão pouco – quase nada – para promover programas edificantes de acolhimento aos novos estudantes, capazes de esvaziar esta cultura seguidista e de bajulação do poder entre os estudantes. É porque essa atitude é exatamente igual à que vigora no seio das próprias estruturas da instituição, no seio dos departamentos e da própria reitoria. O peso da representação estudantil no Senado ou mesmo no Conselho Geral, apesar de pequeno, pode fazer a diferença nas tomadas de decisão daquele órgão, designadamente no caso da eleição do reitor. Qualquer observador atento que tenha acompanhado esses processos nos últimos mandatos sabe bem que o comportamento dócil (e subserviente) dos dirigentes estudantis face à hierarquia da universidade pode constituir um garante de recompensas futuras, pelo que importa, por um lado, não hostilizar as “tradições” (sublinhe-se as aspas) tão arreigadas que estão neste ambiente académico.
Por outro lado, os alinhamentos com o poder podem ser vantajosos para os protagonistas que se destacam entre os grupos praxistas e futuros “lideres”. Além disso, é bem conhecida em Coimbra a primazia que tem sido dada pela atual equipa reitoral ao marketing e à gestão financeira, ainda que por vezes em atropelo da cultura colegial e do diálogo democrático. Parece assim evidente que a leitura dominante na UC desaconselhe a interferir demasiado numa matéria que, apesar de considerada “inócua”, é muito conveniente para ajudar a manter o statu quo, seja no associativismo académico, seja na Universidade e no seu governo.
Ora, este culto da subserviência e do autoritarismo não é exclusivo de Coimbra, antes se propaga – por vezes com contornos ainda mais graves – nas mais diversas cidades e instituições de ensino superior do país. Temos uma democracia ameaçada? A extrema-direita está imparável? Pode até ser exagero. Mas creio que é neste plano que o problema deve ser encarado.