Coimbra, para além de uma cidade historicamente relevante a diversos títulos, pode corporizar um conceito paradoxal. E isto porquê? Repare-se que, embora tenha sido a primeira capital do reino, projetou-se ao longo da nossa história por ser a sede da Universidade, mas esse facto evoluiu ao longo dos tempos para uma relação algo tensa, contraditória e em alguns momentos conflituosa, mesmo. Entre “académicos” e “futricas” há uma espécie de jogo, talvez uma competição surda, mas que se tende a eternizar sem solução ou resultado que beneficie uma das partes dessa contenda. Talvez possa aplicar-se ao caso de Coimbra a noção de «liminaridade» (desenvolvida pelo antropólogo britânico Victor Turner), com a diferença que, em vez de um momento transitório e de indefinição entre um antes e um depois, ou seja, um ritual de passagem, de “morte” e “renascimento”, parece tratar-se de um estado permanente, em que essa ambivalência como que se tornou uma condição estrutural da cidade.
Vem isto a propósito da relação entre a cidade e a Universidade de Coimbra (UC). Desde o século XV que essa relação foi marcada pela constante indeterminação entre a instituição (Estudos Gerais), dotada de regras jurídicas próprias (que, em diversas ocasiões se sobrepuseram ao próprio Estado e ao poder civil, de que é exemplo o Foro Académico, uma lei orgânica criada em 1408 e que vigorou até 1834), e a cidade, suscitando repetidas situações de conflito, incluindo violência física, assaltos e rixas onde muitas vezes se misturaram grupos delinquentes e estudantis. Noutras ocasiões também as ações de grupos de estudantes militarizados, como ocorreu durante as lutas liberais do século XIX (Maria da Fonte e Patuleia são exemplos históricos desse tipo de movimentos) acentuaram o papel decisivo dos corpos universitários na sociedade mais geral. Esse protagonismo da UC, em diferentes conjunturas históricas, elevou-a a um estatuto de distinção que se impôs sobre as coletividades locais, mantidas na sua subalternidade.
Assim, uma tal proeminência da universidade no plano académico, mas também cultural, cívico e até político, deu lugar a uma relação dialética, por vezes tensa, entre a “torre de marfim” e as populações do lado de fora das suas muralhas. Por um lado, o elevado estatuto que a elite coimbrã – direta ou indiretamente ligada à UC –reivindicou para si própria deu lugar a uma atitude de autoemulação e consequente subalternização da sociedade “profana” que a rodeia. Por outro lado, a imagem da cidade dos doutores não casou bem, até hoje, com o “clube dos futricas”, que de algum modo representa as gerações herdeiras dos grupos marginais de outrora, aqueles que, no início do século XVIII, se disfarçavam de estudantes para cometerem os mais diversos ilícitos, escapando à justiça. Aqui se reflete a dialética de uma espécie de luta de status marcada pela dupla lógica de exclusão/ usurpação.
Creio que essa tensão entre a universidade e a cidade nos pode ajudar a compreender a atual relação, que permanece ambígua e contraditória, entre o campo académico e o campo da política e da economia. Em alguns momentos, desde que me fixei em Coimbra (1985) assisti e participei em iniciativas e movimentos onde a referida condição de liminaridade, ou seja, essa ambivalência pautada, por um lado, por uma certa altivez elitista da UC e, por outro, por um certo ressentimento latente da cidade extra-muros. Creio que essa polarização constrange a implementação de programas inovadores em maior número com base em formas de governança partilhada, numa lógica de jogos de soma positiva, para beneficio da região, da cidade e dos seus cidadãos (alguns exemplos bem sucedidos, como o IPN – Instituto Pedro Nunes e o Biocant, em Cantanhede, são exceções).
Não devemos pessoalizar o problema, centrando o assunto na figura do reitor ou do presidente da Câmara, por exemplo. É mais profundo do que isso. Trata-se de um efeito cultural acumulado onde se inscreve um somatório de preconceitos que incide no subconsciente dos protagonistas e determina as suas subjetividades e comportamentos. Os atores políticos são mais do que eles próprios, porque a partir do momento em que emergem na cena pública cola-se-lhes uma dada imagem que, neste caso em concreto, os cataloga com a etiqueta de “académico” ou “não-académico”, sendo que em Coimbra o primeiro é sinónimo de “teórico” (portanto, desligado da vida real), enquanto o segundo é conotado como “prático” (ou pragmático, aquele que faz obra). Estas duas conceções têm vindo a marcar divisões fúteis entre os principais atores institucionais. Obviamente que a realidade é mais complexa do que isso, mas na cabeça do eleitor comum, ou mesmo de um militante de base é essa visão dicotómica que prevalece.
Essa conceção, simplista e superficial, está presente na sociedade e reflete-se em todas as esferas da vida, inclusive no interior dos partidos políticos e entre os próprios agentes dos diferentes corpos universitários. Trata-se de um fenómeno que, evidentemente, não é exclusivo de Coimbra. Mas as particularidades desta cidade, e o peso simbólico e sociocultural que a Universidade assume, faz dela um caso singular. Todavia, o mais espantoso é que essa presença, em vez de potenciar a inovação e reinventar as experiências democráticas e o desenvolvimento socioeconómico sustentável, parece contribuir para inibir ou até paralisar projetos mais ambiciosos e imaginativos, dignos da riqueza histórica da cidade.