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19-08-2025        Público

Em 2017, sob o título doloroso Estes fogos que nos descarnam..., chorei nestas páginas as lágrimas de uma tragédia que devastou o nosso chão comum e tocou cada um de nós. Então como hoje, senti o rugir do vento, a voragem das chamas e a asfixia do ar que, na aldeia onde nasci, ameaçaram e desafiaram a coragem dos meus amigos de infância, dos meus colegas de escola, dos meus conterrâneos que, numa tristeza imensa, ficaram rodeados de uma paisagem negra e destruída.

Julguei então que uma desgraça de tal tamanho bastava para se fazer o que podia ser feito. Não bastou! Menos de oito anos depois, interrogo-me sobre quanto textos mais escreverei sobre este assunto.

Vou ser cru e excessivo. Tão cru como é duro o nó que tenho na garganta e como é salgada a água que me enevoa os olhos. Eu, que elogio o planeamento e a preparação cuidada, declaro que estou farto de me ver atolado em planos, planeadores, agências, zonamentos, gestão, prazos, desenhos de proteção, limpeza (como se tratasse de fazer a higiene!), despovoamento, ações integradas, medidas inovadoras, mapas, contratos, descentralizações e desconcentrações, o raio que os parta! Rodeados de tudo, menos do que falta E o que falta é ação, ação concertada sob autoridade pública! Falta cultivar a floresta. Se o termo não fizer sentido para os técnicos, faz para mim.

Não tenho competência para falar tecnicamente de floresta, mas parece-me razoável pensar que, como tudo o que se desenvolve na terra, ela precisa de tratamento, cuidado, cultivo. Repito, cultivo. A floresta não é uma coisa que é preciso afastar das pessoas, para que não lhes faça mal. À falta de melhor, uso a expressão que usei há oito anos: exploração florestal. Isto é, corte, replantação, diversificação, sucessão de intervenções, ciclos sucessivos, com os tempos necessários. Como é que isto se faz? Devem fazê-lo, de forma devidamente regulada, as empresas que se dedicam à floresta. E que, por incentivo público, devem se apoiadas para alargarem a sua atividade sob condições de promoção do bem comum. Devem fazê-lo os proprietários individuais que assumam a responsabilidade da propriedade. Deve fazê-lo o Estado nas escassas matas públicas e onde mais ninguém o faça ou possa fazer. Mas é de fazer que falo! Fazer o que não está a ser feito. Cortar, usar a madeira, repovoar, variar espécies – tudo o que, se bem penso, cabe no conceito de exploração florestal, não no linguajar que está a tornar-se tão ofensivo como inútil.

A floresta sempre ardeu. Claro que sim. Mas o fogo era apagado pelas mãos, na maior parte das vezes desarmadas, que cultivavam a floresta. A floresta arderá sempre muito. Claro que sim. A isso conduz o estado desgraçado a que o mundo chegou. Mas não se julgue que será com populações que não existem, agências que “gerem”, burocracia que “ordena”, planos que “planeiam”, mapas que “mapeiam” que se cuidará da floresta. Não será. É cuidando do chão que se cultiva a floresta.

Perdi as ilusões. Ninguém fará isto, sei-o bem! Estamos no tempo do abacate, não no da floresta. Perdemos o direito ao nosso chão e ninguém no-lo devolverá. E estamos demasiado derrotados para o reconquistarmos nós. Resistência e denúncia – isso podemos fazer.

Alguém virá obter as rendas que a natureza dá. Alguém prometerá “serviços ambientais” para ganhar direitos, receber pagamentos públicos. E a floresta continuará a arder como hoje porque estes apenas se servem dela e rejubilam com dinheiro. E o Estado que temos será, mais uma vez, subserviente e risonho. E quando tirar as mãos do que incomoda dirá que é uma reforma “estrutural”.

Resta-nos a crueza, a zanga, a ira dirigida a quem nos descarna. Resta-nos saber que saberemos sempre chorar, sentir a perda, amar a paisagem, apreciar a cor que ela sempre reganhará. E sabermos, como só sabemos na tragédia, que a nossa vida não reside apenas em nós, está nos lugares, nos companheiros, no ar e na terra cuja ferida nos fere, estejamos longe ou perto. Como eu sei quando sei que a minha aldeia está rodeada de fogo e basta uma faúlha para arder na soleira das portas.

Perdi as ilusões, ganhei a zanga e sei o que penso de quem nos anuncia, com o país a arder, que teremos Fórmula 1, como tão sagazmente notou logo o Francisco Seixas da Costa. E não hesito em citar o Capitão Haddock na mais impublicável das suas expressões!


 
 
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José Reis