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04-11-2023        As Beiras

Não existe palavra mais rude que «vingança». Ela traduz a resposta a uma afronta com outra afronta, mesmo quando não está na nossa índole fazê-lo. Pelo início do século XVII, o filósofo Francis Bacon descreveu-a como «justiça selvagem», capaz de «ofender a lei e atirá-la para a rua». Pode ter uma dimensão pessoal, mas a sua modalidade mais imoderada é a de grupo, pois aqui não é pontual, funcionando por meio de de ciclos longos de desafio e retaliação, realizados por famílias e clãs, ou por tribos e etnias, muitas vezes sob a forma de «vendeta de sangue». Pode também ser lançada por setores animados por doutrinas intransigentes de teor religioso, filosófico ou político, em larga medida dinamizadas pela ira e pelo ódio a quem as procure contrariar.

O surgimento da Internet e das redes sociais potenciou as palavras, os agentes e as formas de vingança, devido sobretudo à facilidade do uso e ao resguardo cobarde do anonimato e da distância, bem como à propagação de técnicas de manipulação da opinião pública e à produção industrial da mentira. Fala-se até hoje de uma «pornografia da vingança» instalada neste território semisselvagem, que é determinada pela propagação do insulto, da calúnia ou dos apelos à retaliação e à violência. Todavia, a sua expressão mais extrema é aquela motivada pela guerra, que engloba sempre iniciativas extremas de agressão e de resposta, tantas vezes prolongadas e registadas de forma traumática na memória de todos os que as vivem.

Perante o apetite de vingança, o fator racional de compreensão da realidade tende a desparecer rapidamente, mesmo entre pessoas informadas, com experiência no campo da reflexão, do debate e da comunicação, e habitualmente tolerantes e pacíficas. Estamos neste preciso momento a observar este fenómeno perante dois conflitos especialmente visíveis e com grande impacto público: com a guerra de invasão da Ucrânia pela Rússia e sobretudo com o grave conflito entre o Hamas e Israel. Em ambos os casos, multiplica-se o extremar de posições, que pouco quer saber das razões do outro lado ou da indispensável procura de soluções, preferindo a cegueira interpretativa e a diabolização do adversário.

Para quem deste modo pensa e age, não importa que a sua escolha implique contradições profundas face a outras que no passado tomaram. Assim se explica, por exemplo, que as mesmas pessoas que se declaram democratas, a favor dos direitos das mulheres e LGBTQI+, adeptas do pensamento laico, defensoras de uma ordem global pacífica e justa, ou que se dizem horrorizadas pelo Holocausto, colaborem numa nova vaga de antissemitismo e se mostrem complacentes ou favoráveis ao Hamas. Mesmo sabendo que os palestinianos que vivem nos territórios que controla em Gaza são tiranizados e usados como escudos humanos, e que a organização é igualmente inimiga do governo palestiniano da Fatah, com o qual já travou uma guerra civil. Um responsável do Hamas, Ghazi Hamad, acaba de afirmar na televisão libanesa não se importar de «matar mais de um milhão de judeus» para impor o desaparecimento de Israel, principal objetivo da organização a par da instalação de uma república islâmica.

Mas se a lógica negra da vingança está na boca dos inimigos jurados da existência histórica de Israel, de modo algum o está menos, como o mostram as terríveis notícias de morte de civis e de destruição em Gaza que chegam a cada hora, na daqueles que, do lado do governo direitista e ortodoxo de Tel Aviv, defendem a legitimidade da réplica desproporcionada ao brutal massacre de 7 de outubro. Fanáticos islamitas e falcões sionistas, e os seus indefetíveis apoiantes em todas as partes, vivem apenas a lógica da aniquilação do outro e da vingança genocida, sabendo-se que a paz e o reconhecimento dos direitos dos povos da região – de todos eles – são, por mais difícil que seja obtê-los, a única solução razoável. Até lá, o espírito de vingança continua a ampliar a imensa tragédia humana, mas quem deseja a paz deve forçosamente contrariá-lo. Todos os dias e com a maior veemência.


 
 
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Rui Bebiano



 
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