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10-10-2022        Arte Capital

No contexto atual, pautado pelas alterações climáticas, emergências de saúde, ascensão de movimentos populistas e conservadores ou guerras e ameaça nuclear, imaginar um futuro justo pode ser considerado um acto transgressor.

Foi mesmo esse o mote da Escola de Verão CES ‘Reacender a imaginação cívica para a mudança social’ (junho de 2021) e para a exposição virtual com o mesmo nome, que ficou disponível ao público em junho de 2022. ‘Imaginação cívica’ refere-se à capacidade de imaginar alternativas às condições culturais, sociais, políticas e/ou económicas contemporâneas. A pesquisa sobre a imaginação cívica (Jenkins et al. 2020) tem criado um espaço onde as humanidades se encontram com as ciências sociais para, juntas, explorarem as consequências sociopolíticas das representações culturais e as raízes culturais da participação política. Nesse processo, cria-se a necessidade de (re)pensar a nossa voz enquanto agentes políticos de mudança e a forma como entendemos e sonhamos as relações com outros/as, humanos e não humanos, e com o planeta Terra; e de reimaginar como vivenciamos a liberdade, o respeito e a democracia em momentos desafiadores em que esses direitos nos são negados.

Ao longo de uma semana de Escola de Verão navegámos por essa imaginação cívica através da investigação académica vinda de vários contextos geográficos, escutámos discussões em mesas redondas com artistas e ativistas de diversas áreas e organizações de base comunitária sobre o clima, as artes e cultura ou a saúde mental e realizámos de workshops em que pensámos representações do futuro feitas pelo cinema mainstream e discutimos formatos, meios e o alcance da forma como, enquanto académicas, comunicamos ciência social para diferentes públicos. Ao longo de todo este processo, a articulação entre a teoria e a prática, assim como da história pessoal de cada participante, foi tão evidente como essencial.

A exposição virtual ‘Reacender a imaginação cívica para a mudança social’ resulta precisamente dessa reflexão crítica e também autoetnográfica levada a efeito durante o período da Escola, mas com muitas reverberações para além dela. Através de várias linguagens artísticas e de comunicação – escolhidas por cada participante e buriladas pela curadoria da exposição – este conjunto de onze obras constitui um olhar carregado de dúvidas e receios de quem já sentiu na pele a injustiça social, mas também de desejos e afectos, construindo um verdadeiro caderno de encargos para as lutas civil e social, climática, cultural e identitária que resultarão num mundo mais justo daqui a meio século.

Logo no arranque da exposição, Isabella Alves vai direta ao assunto escrevendo a pastel de cera numa folha já usada – ou seja, fiel depositária de outras histórias e camadas de significados – um apelo à resistência pela possibilidade de todo e qualquer tipo de existência. Em cinco cartazes, Tiago Mindrico elabora sobre a muito necessária reinvenção social e política decorrente do contexto de emergência climática. Passaremos a ser uma sociedade digital com todos os dispositivos ligados em rede, gerida pelas forças de mercado; com o nuclear como fonte de energia, que leva a pouca população existente a viver sob uma cúpula, sem poder olhar o céu; dependente da luz solar e que cria a sua própria comida e ferramentas DIY; ou de total oposição a sistemas tecnológicos para centrar na natureza a resposta para a coexistência saudável com as outras espécies do planeta? Do individual para o coletivo, Andrea Martins reflete sobre os temas da Escola de Verão e faz uma chamada para a acção através de um poema. Juntando um vídeo a um comentário áudio, e tendo o Brasil como foco, Mayalu Matos imagina futuros justos e dignos que rompem com o ciclo de violência intergeracional e de desigual distribuição de riqueza. ‘Nonada’, palavra oferecida por João Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas, é o mote para uma reflexão em modo de fragmento poético, montagem de palavras e ilustrações de Renata Motta. Marta Ferraz usa o cartaz/colagem para ilustrar um momento futuro em que existirá um melhor entendimento e aceitação da neurodiversidade nos seres humanos, como potência e não deficiência.

Os serviços postais de e para o futuro trabalharam horas extraordinárias nestas meditações sobre o tempo que ainda aí vem. Beatriz Gonçalves desabafa as suas ansiedades numa carta sobre a esperança na aprendizagem com erros antigos para um futuro com menos injustiça social. Catarina Pratas instiga a conhecer mais, pensar mais, perguntar mais. Maria José Costa dialoga entre o agora e o depois, e entre o analógico e o digital, dando voz a um optimismo céptico. No sentido temporal inverso, Manuel Maria Costa recebe uma carta do seu ‘eu’ futuro, sob a forma de desenho digital, trazendo boas novas de uma vida comunitária plena, intergeracional e interseccional, em perfeita comunhão com o planeta. Num exercício de escrita por associação livre, acompanhado do seu testemunho em voz própria, Andressa Bissolotti dos Santos discorre sobre ser mulher lésbica no Brasil de hoje, o envelhecimento LGBTI+ e a possibilidade de residências sénior inclusivas, numa luta entre medos presentes e possibilidades do amanhã.

 Para além das reflexões que nos trazem, estes trabalhos deixam claro, em simultâneo, como estes meios de expressão podem ser linguagens poderosas para o pensamento crítico e talham novos (e velhos) caminhos para a comunicação de ciência social. A experiência de criação e uso de linguagens audiovisuais nas ciências sociais não é uma novidade. Aqui, o que se pretendeu foi também uma experiência fenomenológica de narrar o (seu) mundo. Uma experiência que não é táctil, como em tantos outros processos de criação artística e exposições, mas é sem dúvida expressada e sentida pelo corpo (embodied), para artistas e para o público que navega pela exposição. É um bom mote para discutir o potencial do uso destas linguagens e apelar à intensificação da sua escolha como ferramentas de investigação (metodologia) e de análise (teoria) em ciências sociais.

E foi desta forma que onze pessoas de diferentes jornadas pela vida (pessoal, profissional, académica, artística e ativista) exploraram caminhos para o futuro através de diferentes meios: vídeo, desenho digital, áudio, texto manuscrito, cartazes, poemas... Apresentaram publicamente (e emotivamente!) as suas reflexões no último dia da Escola e elaboraram sobre elas posteriormente até ao formato que se dá a conhecer nesta exposição. Nelas, em modo ‘do it yourself’, sem se arrogarem a qualquer tipo de polimento ou perfeição técnica, dão-nos a conhecer a sua voz (com ruído de fundo e latidos de cão), os seus retratos (desfocados) ou as suas emoções (sem filtro) enquanto agentes de mudança cívica para reimaginar como vivenciamos a liberdade, o respeito e a democracia em momentos desafiadores em que esses direitos parecem cada vez mais comprometidos.

Cada pessoa reflectiu sobre o futuro contando a sua história. Cabe agora a cada um/a de nós ligar pontos e atar pontas na nossa própria.


 
 
pessoas
Rita Alcaire



 
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