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16-02-2022        As Beiras

Estranha coisa, a “tradição”, etimologicamente conotada com a entrega, com a passagem de posse de um determinado bem, móvel ou imóvel. No latim tardio a sua origem relacionou-se também com “traição” — tradimento ainda em italiano contemporâneo — que significava a entrega de algo precioso ao adversário. Mas na verdade, e para o que importa, esta palavra tradição está hoje conotada com a entrega de geração para geração de determinadas práticas sociais, comunitárias ou mesmo individuais. Ora, os padrões de aceitação social dessas práticas vão-se adaptando e transformando com o tempo, ainda bem que assim é. Sempre que a tradição perdura é bom sinal, porque significa que superou esses padrões de aceitação e, quando isso acontece, frequentemente se torna um precioso veículo para construir e fortalecer vínculos de identidade social ou comunitária.

Tal como tantas outras coisas, a tradição necessita de um equilíbrio entre aquilo que a torna essencial, o sentido da sua existência se quisermos, e a adaptação colectiva desse sentido às sucessivas contemporaneidades. O equilíbrio tem de ser construído com naturalidade, não pode ser forçado para um lado nem para o outro, é isso que faz com que a tradição se torne “clássica”. Ou seja, se isso funcionar no plano social, o mais certo é que a tradição perdurará, haverá sempre lugar para diversas formas de a viver e, consequentemente, de a entregar às gerações vindouras. Haverá lugar para quem se empenhe na estrita fidelidade aos valores “originais” e haverá também lugar para quem tente obsessivamente adaptá-la à sua própria contemporaneidade. Se esse equilíbrio funcionar, poderemos enfim afirmar que a tradição é forte e está bem enraizada, os membros da comunidade sentir-se-ão então naturalmente vinculados a ela, enquanto matriz da sua própria identidade. Se não funcionar, corremos o risco de a enfraquecer, ou até de a extinguir.

Suponhamos então que há uma cidade e uma região com um fortíssimo potencial de práticas que se podem constituir em tradição, um potencial tão evidente que leva a que alguns considerem, genericamente falando, que qualquer tentativa de adaptação ao presente o pode fragilizar, ou seja, que a tradição tem de se manter “intacta” custe o que custar. Em primeiro lugar, há que dizer que o qualificativo “intacta” raramente diz respeito à tradição em si mesma, daí estar entre aspas, mas sim a certos pormenores de um tempo em que uma pessoa ou um grupo a viveu mais intensamente. Não diz respeito à essência, portanto. Em segundo lugar, o mais certo é que essa tentativa de preservação forçada conduza ao aniquilamento da tradição ou, pior que isso, à redução social da sua posse a pequenas agremiações privadas e exclusivistas.

O potencial de construir uma verdadeira tradição nessa cidade era, portanto, fortíssimo e transversal aos diferentes grupos sociais que a compunham — não falo só da Academia — e era também transversal a quase todas as práticas de expressão social. Deste logo à cultura, através da qual se podem extrair valores identitários robustos e verdadeiramente carentes de adaptação à realidade contemporânea: a música, a literatura, as artes visuais. Mas também ao desporto — claro que falo da Académica, mas não só — falo de todas as colectividades que, em felizes momentos da história recente, enalteceram e divulgaram a riquíssima panóplia de especificidades culturais que habitava, e ainda habita, a cidade, os seus bairros e as localidades vizinhas. De entre tantas dessas manifestações onde o potencial da tradição está latente, não posso deixar de mencionar a urbanidade, a vida nas ruas do centro, nas praças, nos cafés, nos mercados e nas feiras.

Enfim, tudo potencialidades que carecem urgentemente de um refrescado equilíbrio entre manutenção do que é essencial e adaptação à contemporaneidade. Sem isso, corremos sérios riscos de aniquilar definitivamente a tradição, ou de a vender on line numa pequena e mimosa caixinha de cortiça, “rather traditional, by the way”.

A adaptação à contemporaneidade deste potencial será já um trabalho para as novas gerações, mas eu deposito nele uma enorme esperança. Sei bem que o êxodo dos jovens nos últimos anos o tornou mais difícil, mas não posso deixar de enaltecer os/as poucos/as mas bons/boas que ficaram e que têm nas mãos essa função determinante. Não lhes turvem o caminho por favor, não deixem que os fundamentalismos do “intacto” impeçam a saudável adaptação ao mundo contemporâneo.


 
 
pessoas
José António Bandeirinha



 
temas
tradição    cidade    contemporaneidade    Coimbra    arquitetura