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05-06-2021        Jornal de Notícias

As atitudes dos seres humanos perante o que é novo sempre foram um misto de surpresa, encantamento, resistência e necessidade de experimentar. Não estudar e considerar os riscos, imediatos e a prazo, de uma inovação pode ser desastroso. Mesmo quando há consequências reconhecidas, o desrespeito pelo bem comum, o endeusamento do mercado e do lucro e a ideia da concorrência sem limites - que alimenta a tese de que se "não fizermos nós, outros o farão" - vão acumulando perigos para a humanidade.

Sabe-se, desde o início da exploração do espaço, que o lixo aí acumulado pode tornar-se muito perigoso, mas a situação continua, e agravar-se-á à medida que crescerem os negócios nessa área. Quando começou a instalação das centrais nucleares, já se sabia existirem riscos não acautelados, nomeadamente o da sua explosão - entretanto já houve três grandes explosões e adia-se o estudo de soluções para os inevitáveis encerramentos. A manipulação genética está carregada de riscos e em limites cada vez mais perigosos, todavia avança sem o necessário controlo. O desenvolvimento dos veículos autónomos tem consequências complexas, no entanto o processo acelera-se sem que se acautelem impactos negativos. Avança a produção de carros elétricos sem estar seguro o destino a dar às baterias que vão ser utilizadas. Os mares estão cada vez mais cheios de plásticos e outros lixos, mas muito pouco se faz para resolver o problema.

São extraordinários os avanços da ciência, das tecnologias e dos conhecimentos que sustentam estas inovações. Contudo, é indispensável interpretar com rigor os conceitos "conservação" e "mudança", identificar as nuances que marcam cada um deles e gerir bem as tensões entre os dois. Há que garantir a participação da comunidade e o debate público na discussão dos custos e benefícios da aplicação de novas tecnologias e conquistas científicas, bem como as suas implicações na divisão do trabalho e nas formas da sua organização e prestação. O esvaziamento da política e a utilização de linguagens herméticas por parte dos "especialistas" geram falsos determinismos e colocam o comum dos cidadãos numa situação de impotência perante o andamento das inovações.

As medidas de emergência e de exceção adotadas nas respostas à pandemia reforçaram a utilização unilateral de poderes e vieram, em certa medida, legitimar estratégias políticas e económicas que nos empurram para mergulhos no escuro, apresentados como inevitabilidades geradas pelo que é novo. Recentemente, uma minha amiga (gestora de uma significativa instituição), que no primeiro confinamento se encantava com as vantagens do teletrabalho, em diálogo comigo sobre este tema já enunciava um conjunto de consequências negativas e expressou esta interrogação carregada de simbolismos: "Será que vamos ter os sindicatos substituídos por psiquiatras?"

Grande parte do que se tem afirmado sobre o teletrabalho, o trabalho remoto e o futuro do trabalho não passa de hipóteses, por agora com pés de barro. A inteligência humana deve fazer uma utilização da técnica e da ciência muito menos predadora dos recursos do planeta e bem mais ao serviço de todos os seres humanos. O futuro é feito de continuidade, de transformação e de incorporação de novo. Este, obrigatoriamente testado em favor das pessoas e da sua felicidade. Não embarquemos, pois, em mergulhos no escuro.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
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