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04-08-2020        Público [P3]

Durante a semana passada, uma loja nos Açores terá alegadamente afixado na porta do seu estabelecimento um aviso onde podia ler-se “Proibida a entrada de continentais cheios de corona” e “If u no make test u go away us no speak to u bad turist, us no like” [sic]. Com o poder inflamável das redes sociais, rapidamente uma fotografia desta obra literária se tornou viral. Tão inflamável como a sua velocidade de propagação, foi também o brotar de uma quantidade enorme de activistas das redes sociais. Estas pessoas, embebidas num enorme sentido de justiça social, prontamente defenderam tanto continentais, como turistas – estes dois grandes grupos marginalizados da nossa sociedade. A título de exemplo, nos mais de 220 comentários de um post desta fotografia, podiam ler-se comentários a sensibilizar para o facto de haver pessoas a morrer por causa desta doença, outras afirmavam que se tratava de uma brincadeira de mau gosto, outras chamavam a atenção para a discriminação, xenofobia e até racismo.

Ironia à parte, neste artigo não pretendo dar parcialidade sobre a legitimidade de ter ou não ter aqueles papéis na porta (que parecem já ter sido retirados, de acordo com as redes sociais da loja), tampouco pretendo discutir sobre os limites do humor. Estou plenamente de acordo com o facto de as pessoas terem noção de que o humor também pode (e deve) ser criticável e que as pessoas podem (e devem) falar, sempre que lhes pareça que estão a presenciar uma injustiça. Não obstante, levantam-se uma série de questões merecedoras de reflexão.

Onde andam estes activistas das redes sociais quando na festa de Natal a tia deixa sair frases feitas como “entre marido e mulher não se mete a colher” — em Portugal, há registo de 23 586 crimes em contexto de violência doméstica, só no ano passado. Onde andam estes activistas das redes sociais, quando na mesa de café, os nossos amigos chamam “paneleiro” a outro homem, seja a título de insulto, seja em forma de “humor”? “Epa, hoje vieste vestido à paneleiro!”. Não creio que exista uma única pessoa homossexual no mundo que não se tenha habituado a ouvir como insulto. As taxas de suicídio de pessoas LGBT são, no mínimo, preocupantes.

Onde andam estes activistas das redes sociais quando na viagem de amigos alguém solta um “vê-se mesmo que é uma gaja”, como forma de criticar a condução de outrem. A desvalorização das capacidades das mulheres é incrivelmente comum, olhemos, por exemplo, para as estatísticas em relação aos salários, que mostram que as mulheres continuam a receber menos que os homens quando desempenham as mesmas funções.

Onde andam estes activistas das redes sociais quando temos agentes políticos, por nós eleitos, afirmando a plenos pulmões que não vivemos num país racista, quando há, em Portugal, investigação de excelência que nos mostra exactamente o contrário. Sentemo-nos na mesa de um qualquer bar, esperemos pela hora do futebol e estejamos atentos. Será hora dos “pretos de [inserir palavão à escolha]” e dos “filhos das [inserir insulto]”. Incrível versatilidade que as mulheres da nossa família têm a servir de insulto alheio.

Não precisamos recorrer à investigação, ou às estatísticas, para estarmos mais envolvidas/os em pequenas coisas que acabam por fazer grandes diferenças no todo. Estejamos todas mais atentas à nossa linguagem, às nossas piadas, aos nossos provérbios. Estejamos todos mais activos, na mesa do café, na festa de família, no trabalho. Estejamos todas e todos mais capazes de trazer esse activismo das redes sociais, também para fora, e com capacidade de reflectir sobre o facto de podermos tomar parte também pelos grupos marginalizados da nossa sociedade que não são publicitados pelo seu impacto directo no Produto Interno Bruto.


 
 
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