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08-04-2020        Público

Fui aluno da telescola em 1967-1969. Foi naquele tempo de um país triste em que se tinha como normal que um miúdo de dez anos não continuasse a estudar. Mesmo tendo nascido numa aldeia, nasci, felizmente, numa casa em que não se pensava assim, em que não se admitia que isso pudesse acontecer, com a urgência de se saber que havia uma guerra e o rapaz não podia ir para a tropa como soldado raso. Mas em que era assunto sério deslocar para Coimbra, onde já estava a minha irmã, o segundo filho.

A telescola foi a minha grande alegria. Tanto como a biblioteca itinerante da Gulbenkian e os muitos jornais que se recebiam diariamente em minha casa. Sim, na altura havia correio ao domingo; e também acontecia que os jornais – do Diário de Notícias ao Século, do Diário Popular à Capital – tinham correspondentes nos sítios mais incríveis, mesmo numa aldeia da Beira Alta como a minha. E publicavam notícias de lá. E o meu pai era correspondente desses e doutros jornais, como o Diário de Coimbra e a Comarca de Arganil. Na minha memória, estas três coisas (a telescola, a biblioteca e os jornais do meu pai) estão sempre juntas.

Cheguei a Coimbra dois anos depois, com uma excelente aprendizagem que, devo dizê-lo, ajudou a que me distinguisse da média da nova turma. Tinha aprendido a “matemática moderna” e sido iniciado na teoria dos “conjuntos”, coisa nova. O francês, ensinado por originários, era notável e foi aí que nasceu o meu enorme afeto, que mantenho, por esta língua magnífica. Um dia, na Av. 5 de outubro, numa reunião da equipa ministerial de que fiz parte, contei aos meus colegas a minha pequena história e senti que paguei, simbolicamente, um pouco do tanto que devo à telescola. E fiquei feliz por isso.

Quando a telescola acabou, no princípio deste século, houve uma enorme reunião no grande auditório do Europarque em Santa Maria da Feira. Juntámo-nos ali uma multidão. Na plateia estavam muitos dos que, felizes, tinham feito tudo o que então se encerrava. No palco, o José Nuno Martins, meu herói do Zip-Zip e da divulgação da música na RTP, evocou com incontida emoção o pai, o Prof. José Baptista Martins, que eu tinha conhecido como presidente da Câmara de Vila Velha do Rodão e que tinha sido o grande obreiro da telescola no terreno, palmilhando o país ao mesmo tempo que colhia ensinamentos internacionais. Eu, que em alturas destas não consigo estancar os sentimentos, secundei-o nas emoções quando me lembrei dos da minha turma, especialmente dos que não tinham podido seguir os passos de, creio eu, pelo menos, três de nós, que em Coimbra e em Lisboa viemos para a Universidade. Coisa notável para aqueles tempos obscuros. Sei que me estou a esquecer de alguns, mas aqui ficam os nomes dos meus colegas da telescola: o Afonso, a Fernanda, o Isaac, o Leonel, a Maria José, a Trindade, o Vítor... Assim como do Prof. Jerónimo Sanches Pinto, da Dra. Maria Guilhermina Afonso, que já faleceram, e da Prof. Maria Cecília Sanches Pinto, que eu ainda vou encontrando...


 
 
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José Reis



 
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