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19-07-2015        Jornal de Notícias

O Papa Francisco visitou recentemente Equador, Bolívia e Paraguai. Sobre essa importante visita à América Latina, plena de gestos e afirmações de grande significado – partilhados com diferentes estratos sociais, com os povos, mas também com chefes de Estado – muito pouco se noticiou ou disse na Europa e em Portugal, onde outras posições da Igreja Católica são, em regra, muito divulgadas: porquê? Pura e simplesmente porque as mensagens do Papa, apesar de em alguns aspetos serem questionáveis, significaram um forte remar contra a maré do mundo político europeu.

Francisco relembrou que o capitalismo se apresenta como “ditadura subtil” e colocou o dedo na ferida em temas que devem ser olhados pelos portugueses e europeus com humildade e muita atenção.

O Papa expressou, com frontalidade: “a corrupção é a traça, a gangrena de um povo”. Nós, portugueses, podemos confirmá-lo, pois temos hoje às costas uma enorme dívida que resulta, em parte significativa, de atos de governação que favoreceram negócios oportunistas, que permitiram promiscuidades e compadrios, que tornaram para-legais práticas de gestão privada assentes em fraude e roubo descarado. Para Bergoglio a chantagem política é elemento intrínseco da corrupção: “a chantagem é um método que não dá liberdade às pessoas” para assumirem a responsabilidade de construir soluções para as suas vidas, e para a sociedade. Ora, o que nós temos hoje instalado na União Europeia é todo um arsenal de processos de exercício do poder assentes na constante intimidação e na chantagem sobre os povos. As instituições europeias e internacionais, que durante anos alimentaram e rentabilizaram a seu favor políticas desastrosas para a Grécia (como para Portugal), são as que agora chantageiam e humilham o povo e o governo gregos, por estes buscarem um caminho alternativo de menos injustiça e sofrimento.

Respondendo a interrogações de jornalistas a propósito da situação da Grécia, o Papa disse que “o caminho dos empréstimos e da ajuda não termina nunca”. Esta é uma dura verdade. A Sra. Merkel, os seus parceiros europeus e o FMI sabem que a dívida grega (como outras) é impagável, mas isso não os impediu de obrigarem os gregos a “receber” mais uma “ajuda” de 86 mil milhões de euros, acompanhada de nova e dura dose de austeridade que não permitirá ao país sair do sufoco, quanto mais desenvolver-se.

Na negociação com o governo grego recusaram avançar na reestruturação da dívida, para poucas horas depois da imposição do “acordo” virem dizer que vai ser imprescindível essa reestruturação. Porquê tanta chantagem e mentira? Durante muito tempo argumentaram que juridicamente era impossível um país sair do euro, mas quando lhes interessou elevar a ameaça surgiu o Sr. Schäuble com a proposta, mostrando claramente que o problema é político e não jurídico.

O Papa Francisco afirmou no Equador que “os pobres são a dívida que toda a América Latina ainda tem”. Um país que segue por caminhos geradores de desigualdades e pobreza cria uma pesada dívida, nomeadamente para com as futuras gerações. Em Portugal, por mais exercícios de manipulação de dados estatísticos que certos reguilas e oportunistas políticos fazem para nos iludirem, a verdade é que a austeridade nada tem a ver com rigor e justiça. Pelo contrário, gera uma dívida para com os portugueses: no direito ao emprego e salários dignos, a direitos sociais fundamentais, a uma vida digna em democracia.

Os mecanismos de funcionamento do euro estão estruturados para impedir reestruturações de dívidas e outras opções políticas de que os países precisem para manter soberania e definir rumos de desenvolvimento.

As fissuras (pequenas) que começaram a ser visíveis entre vários dos grandes atores do processo europeu podem-se aprofundar se mantivermos a guarda. Está agora mais claro que o euro e a zona em que funciona estão organizados sob uma lógica neocolonial e de reposição de velhas relações de classe que aprisionam os povos.

As forças de esquerda têm de, corajosamente e com paciência, trabalhar junto do povo propostas claras para um mandato de governo que possa libertar-nos deste aprisionamento.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
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