Uma investigação do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC) concluiu que os episódios de incivilidade na Assembleia da República (AR) mais do que duplicaram desde a entrada do partido Chega no parlamento. O estudo, que analisou dez anos de debates na AR, concluiu que o Chega foi responsável por mais de um terço dos casos registados entre 2020 e 2025.
O investigador Manuel João Cruz analisou mais de duas mil interações e 50 horas de intervenções de deputados ao longo de dez anos. A análise focou-se em categorias como a ridicularização, a agitação deliberada e as interrupções, que passaram de uma média de um episódio a cada dois minutos para um caso a cada minuto. Para o investigador especializado em populismos “a interrupção já faz parte da identidade do partido”.
Num novo artigo em revisão, os dados identificam Pedro Frazão, Filipe Melo e Pedro Pinto, deputados do Chega, como os membros parlamentares com maior taxa de falta de civilidade nos últimos 50 anos, apesar de só terem sido eleitos em 2022. Expressões como “és um palhaço” ou o tratamento dos colegas por “tu” foram alguns dos marcadores de desrespeito identificados. Para Manuel Cruz, esta postura está intimamente relacionada com as redes sociais.
O estudo demonstra que não houve um aumento significativo de incivilidade por parte dos restantes partidos. O investigador defende que a AR deve rever os mecanismos de autorregulação e sugere medidas como a penalização de alguns segundos nas intervenções dos partidos com infrações recorrentes.
Manuel João Cruz afirma que os dados do estudo são um indicador da transformação do “jogo democrático” em Portugal e alerta que a normalização deste tipo de discurso e comportamento prejudica a saúde da democracia.