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08-07-2012        Público/Revista 2    [ pág. 8 ]

Não tinha Siza vencido já um Leão de Ouro em Veneza? Não se trataria agora de platina? Os telefonemas dos jornalistas do PÚBLICO deixaram-me perplexo mas depois percebi. Este era o Leão de Ouro que premeia a "carreira";. Há injustiças aviltantes de que só nos damos conta depois de resolvidas.

Há alguns meses foi posto a circular Siza sings The Beatles, um vídeo de Fernando Guerra em que Siza trauteia When I’m Sixty Four com a gravação original em fundo. Que Siza gosta de cantar, já sabíamos. Está aliás registado no belo documentário O Arquitecto e a Cidade Velha, de Catarina Alves Costa. Mas os Beatles! É um encontro de gigantes.

Não exagero nada ao dizer que para um arquitecto português ou, digamos, para mim…, Siza tem a importância fundadora dos Beatles: abre um espaço então desconhecido e preenche-o como se fosse natural; não faz rupturas, apenas começa de novo; e cria possibilidades para toda a gente.

Como acontece com os Beatles, os primeiros trabalhos de Siza são cover versions de Alvar Aalto ou Lloyd Wright no lugar de Chuck Berry ou de Leiber & Stoller. Impressiona também a precocidade: os Beatles andavam na casa dos 20 anos; Siza tem 25 anos quando projecta a Casa de Chá da Boa Nova e 28 quando desenha a Piscina das Marés, em Leça. Podemos relacionar o regresso ao racionalismo de Siza, no final dos anos 1960, com o back to basics da época do Let it Be. Mas há também um lado onírico: na Casa em St. Tirso para o irmão ou no Banco de Oliveira de Azeméis que sai directamente do Álbum Branco, e é purista e surrealista como Dear Prudence. A habitação social nos anos 1970 tem paralelo na fase Plastic Ono Band de John Lennon: um projecto revolucionário exige uma depuração exemplar.

Em Siza há um Lennon, na inteligência aguda com um humor ácido, mas há também um Paul McCartney, na resoluta vontade de agradar que alimenta a ambição e o talento. A disciplina e a fantasia estão sempre em disputa nos Beatles como em Siza; em ambos há uma capacidade mágica de tomar um formato simples - um pequeno edifício ou uma canção de três minutos - e dar-lhe nuances infindáveis, sem preguiça ou desculpas. 

Para mim, o mundo começou com os Beatles. Quero dizer, literalmente: nasci no ano do Rubber Soul. Os discos seguintes, já os ouvi, ao longe, em tempo real. Só tomei contacto com a obra de Siza no pós-punk, e sou formado por ambos. 

Como forma de agradecimento, quando apresentei o meu doutoramento na Universidade de Coimbra levei na capa, sobre a batina, um pin do Ringo. Não sei se furei o protocolo, mas furei o traje. Era o Ringo, por modéstia, mas também  para dar ritmo à sessão. E, é claro, falei de Siza, e de outros arquitectos, nos idos de 1960. Só me faltou começar a cantar: When I get older, losing my hair, many years from now…

Parabéns Siza. Pelas canções!


 
 
pessoas
Jorge Figueira



 
temas
beatles    arquitetura    Siza Vieira