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09-06-2012        Jornal de Notícias

Como é possível, com que fundamentos e objetivos o Primeiro Ministro (PM) afirmou esta semana que "os portugueses já não estão perante o abismo com que nos defrontámos há praticamente um ano atrás";? Passos Coelho, que já afirmou "só vamos sair da crise empobrecendo";, surge contaminado pela "malvadez difusa"; que caracteriza os contextos de profundas crises.

Uma análise rigorosa aos problemas com que se depara a União Europeia (U.E.) – onde estamos e de que dependemos em grande medida –, às duríssimas condições de vida e de trabalho dos portugueses e aos bloqueios estruturais da nossa economia só pode conduzir-nos, infelizmente, a conclusão oposta àquela.

Nestes últimos dias surgiram duras confirmações do caminho para o abismo que a U.E. está a percorrer. Há um ano, os países da U.E. em dificuldade eram três ou quatro, hoje são já a maior parte dos membros da zona Euro. As estimativas económicas anunciadas para 2013 foram revistas em baixa e também para Portugal.

Espanha, nosso vizinho cuja economia nos influencia fortemente, está numa situação muito delicada e o governo clama por apoios contra a "entrada dos homens de preto";. No dia 7, a agência Fitch desceu o seu rating em três níveis; as chantagens sobre este importante país vão prosseguir e os buracos não vão ser fáceis de tapar.

Joshka Fischer, ex-ministro alemão, afirmou recentemente que a Europa "está em chamas"; e que a Sr.ª Merkel "anda a apagar o fogo com gasolina";. Entretanto, a Agência Moody’s baixou o rating de bancos alemães.

O egoísmo e a sobranceria exibida por setores económicos e políticos alemães agravam a situação dos países em maiores dificuldades, como é o caso de Portugal, e não vão resolver os problemas da Alemanha para o futuro.
Mário Draghi disse: "alguns dos problemas da zona Euro"; não têm origem na política monetária, mas sim na "falta de ação de outras instituições";. Contudo, não se esperem soluções político-institucionais positivas com a atual relação de forças no plano político e com as orientações económicas e financeiras que se perspetivam.

Quando a Sr.ª Christine Lagarde diz "fechem os políticos numa sala até que concordem num plano";, propondo-se ficar com as chaves da porta da sala, sabemos em que receitas de injustiças e exploração assentaria esse plano.
Paul Krugman, observando as orientações traçadas na última reunião do Conselho de governadores do BCE, "gente que está numa situação confortável";, diz que esta gente "é completamente louca face a tudo o que aprendemos nos últimos 80 anos. Mas estes tempos são de loucura, vestida em fatos chiques";.

Por cá também temos os Srs. Borges & Cª, nos seus fatos chiques, receitando as loucuras que empobrecem os portugueses.

A tróica afirmou-se "preocupada"; com a escalada do desemprego e, por isso, reclama mais flexibilização e desregulação do trabalho, mais cortes nos salários. Objetivamente propõe a eliminação da contratação coletiva sugerindo que em cada empresa os patrões estabeleçam o que "podem"; pagar.

Esta ignóbil proposta é feita quando chegou ao Presidente da República (PR), para promulgação, o texto da revisão do Código do Trabalho que ultrapassa a razoabilidade jurídico-constitucional e as condições necessárias para equilíbrios no funcionamento da sociedade. São inadmissíveis as alterações à organização do tempo do trabalho, aos regimes de cessação do contrato de trabalho e da contratação coletiva, à fiscalização e controlo do cumprimento das leis laborais. Será um escândalo se o PR o promulgar.

No último ano regredimos em todas as áreas do social e, esta semana, o que conhecemos de novas medidas na saúde e no ensino é um desastre. O desemprego é um drama nacional em crescendo. Todos os dias há uma família a pedir ajuda à DECO para pagar as contas da água, do gás e da eletricidade.

Portugal não é um oásis no abismo. Essa visão é delirante!

As palavras do PM de "reconhecimento e agradecimento aos portugueses"; pelos sacrifícios feitos são, consciente ou inconscientemente, um exercício de malvadez. São os parabéns aos portugueses pela passividade com que se deixam explorar e enxovalhar.

 


 
 
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Manuel Carvalho da Silva



 
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