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26-09-2026        Jornal de Notícias

António Guterres, no seu discurso na Assembleia Geral da ONU, ainda enquanto secretário-geral, caraterizou bem a curva de grande aperto em que o Mundo entrou. Trata-se de uma reflexão corajosa, de elevado nível intelectual e moral, que contrasta com mensagens mentirosas, ignorantes e de selvajaria que nos são dirigidas todos os dias pela maioria dos políticos atuais, designadamente alguns que subiram à tribuna daquela Assembleia.

Enunciando as crises em que estamos mergulhados, Guterres afirmou que elas "não estão separadas. São capítulos da mesma história. A história do poder. Quem o detém. A quem é negado. Como é exercido. E como está a mudar". O processo de globalização que o Ocidente concebeu e receitou para todo o Mundo desabou e é seguramente, não a causa total, mas uma das grandes causas deste enorme aperto em que nos sentimos.

Os países "operários" das "fábricas do Mundo" resolveram utilizar os conhecimentos também para si. Os detentores de recursos naturais começaram a trazer novos posicionamentos quanto à sua posse e utilização. Os objetivos das guerras feitas em nome da democracia tornaram-se mais carecas e impera a "lei da bala". O processo de globalização entrou, pois, em colapso e evidencia agora as dependências gritantes desse mesmo Ocidente em áreas como a indústria, a energia, as tecnologias e o próprio armamento, com a consequente perda de poder. Daí decorre uma tentativa de recuperação de poder à bruta, agora num contexto geopolítico muito complexo.

Guterres toma como cerne do seu discurso a questão do poder, situando-a em "quatro grandes provas": i) "o poder de decidir sobre a guerra e a paz", expondo a brutalidade, a violência e o sofrimento provocado pelas muitas guerras em curso, denunciando também a leviandade e a dualidade de critérios na análise das suas causas e desenvolvimentos; ii) "o poder que concentra a riqueza e alimenta a desigualdade", mostrando exemplos da ignóbil e incomportável concentração de riqueza a que assistimos e, além disso, demonstrando que a desigualdade(s) não é um problema económico, mas sim "um problema de poder", verdade com a qual choca frontalmente o neoliberalismo; iii) "o poder que impulsiona o caos climático e a destruição da natureza", a propósito do qual nos fala de lucros escandalosos de companhias petrolíferas à boleia das guerras, ou de danos causados impunemente por atividades de outros setores, para concluir, "chega de pilhagem, chega de exploração"; iv) "o poder libertado pela inteligência artificial", insistindo na única via em que é possível torná-la positiva, que é colocar os governos e as instâncias do poder, também internacionais, a protegerem as pessoas.

A fragmentação da ordem liberal global não é a mesma coisa que a desintegração do Universo, mas corre o risco de o ser se não se procurarem soluções. António Guterres não disse, mas talvez seja preciso lutar por um reforço simultâneo do espaço de soberania das nações acompanhado da cooperação internacional.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
temas
globalização    desigualdade    poder