Um governo sem soluções para responder aos reais problemas das pessoas, que trilha amiúde caminhos de injustiça e de negação da cidadania, como vem acontecendo muito com a governação da equipa de Luís Montenegro, quer o povo distraído e desmobilizado. É uma forma de se manter no poder. Porém, a montante, mesmo que silenciosa, está a fábrica do descontentamento.
Quando o Governo não responde aos anseios dos cidadãos, a extrema-direita agradece. O terreno fica fértil para a frustração e a manipulação, para aventureirismos estéreis que nada resolvem, mas que facilitam convergências, mais ou menos espúrias, de descontentamentos. São facilitadores na subida de degraus do poder.
A Moção de Censura apresentada pelo Chega na Assembleia da República será discutida na próxima terça-feira em formato de exercício de foguetório. André Ventura não quer esclarecer nada, nem quer que o Governo se demita. Quer, sim, ampliar confusão e suspeições sobre as instituições e os órgãos de soberania, incluindo sobre o presidente da República. E quer fazer medrar o portfólio de declarações e imagens bombásticas de alto teor enganoso. Os resultados objetivos que atingirá serão pífios, mas a ampliação do lamaçal pode ser significativa, trazendo consigo empobrecimento da democracia.
Tudo indica que o Governo continuará, no fundamental, a confluir com o Chega. A sua agenda articula o neoliberalismo económico com ideais ultraconservadores em áreas sociais sensíveis. Neste contexto continua a dar-lhe jeito não ter de mostrar os retrocessos em marcha no trabalho, na saúde, na segurança social, no ensino, na investigação, na cultura.
Vai iniciar-se um novo ano político e teremos a discussão do Orçamento do Estado. Há carência de debate sobre a situação europeia e internacional em nome das quais todos os dias nos são impostas políticas cada vez mais injustas e perigosas. Portugal está bloqueado no seu processo de desenvolvimento e agravam-se as condições de vida concretas das pessoas. É isto que urge discutir com realismo e honestidade.
A estrutura das despesas e o leque de gastos indispensáveis que as pessoas e as famílias têm de fazer no seu dia a dia têm-se ampliado e, como mencionei neste espaço a 22/8, o Índice de Preços no Consumidor (IPC) cada vez está mais longe de captar a heterogeneidade dos padrões de consumo que nos permitam ver as dificuldades com que as pessoas têm de lidar. O IPC não reflete o enorme peso das rendas de casa e dos custos da habitação. E existem muitos outros desajustamentos.
O agravamento do preço dos combustíveis está longe de ser igual para todos, a baixa remuneração do trabalho e as formas de precariedade utilizam crescentemente mecanismos discriminatórios, aumentam os custos das atividades extraescolares e desportivas, dos transportes, de serviços de limpeza. Alguns destes factos talvez estejam pouco refletidos no IPC.
Precisamos de respostas para estes problemas reais e não de mais um ano de más políticas e de grande desgaste democrático.