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04-08-2026        Público

A recente invasão de migrantes no enclave espanhol de Ceuta é um fenómeno apocalíptico mediatizado, perfeito para alimentar os discursos da extrema-direita que denunciam o perigo de uma invasão da Europa por imigrantes. Tenho, no entanto, poucas dúvidas de que, em Ceuta, não estamos perante uma "crise migratória", mas sim perante uma operação híbrido-militar organizada por, ou com o consentimento de, Israel e Marrocos.

Primeiro, por questões organizativas. Trazer 60.000 pessoas, coordenadas num mesmo dia, para uma tentativa de invasão é uma operação logística que não se faz espontaneamente. São precisos transportes, incentivo de voluntários, articulação temporal e ordens centralizadas. Não se trata simplesmente, como alegou o governo espanhol, de os guardas marroquinos estarem "pouco empenhados em reter os imigrantes". Trata-se de uma questão simples de matemática: são precisos cerca de 1200 autocarros de grande dimensão para transportar essa gente toda. Isso simplesmente não é possível sem uma organização militar.

Segundo, porque tanto Marrocos como Israel têm muitos interesses em desequilibrar Espanha e porque sabem que esta narrativa de "invasão de imigrantes" é perfeita para desestabilizar o governo Sánchez, que está ameaçado pela extrema-direita.

Israel considera a Espanha e o governo Sánchez o seu adversário n.º 1 na Europa por causa das suas posições sobre o genocídio em Gaza e a guerra contra o Irão. Espanha tem sido quem mais critica Israel, defendendo boicotes, nomeadamente na Eurovisão, e sanções na UE, entre outras medidas. Israel considera o governo espanhol um "aliado do Hamas".

Marrocos, por seu lado, tem duas razões essenciais para colaborar com Israel. Primeiro, porque reclama há décadas a soberania sobre Ceuta (uma antiga cidade portuguesa desde o século XV, que passou para Espanha quando Portugal e Espanha se uniram sob a Dinastia Filipina). Segundo, porque mantém um conflito de longa data com Espanha sobre o Saara Ocidental, antiga colónia espanhola que foi invadida por Marrocos, mas cujos habitantes sarauís reclamam a independência de Marrocos e são historicamente apoiados por Espanha e pela Argélia.

Marrocos — ou, pelo menos, a monarquia marroquina — é, por outro lado, uma aliada, aparentemente contraditória, histórica de Israel. Isto explica-se por duas razões. Primeiro, pelo conflito histórico com um inimigo comum: a Argélia, principal força anticolonial no Norte de África, berço do anticolonialismo e apoiante de diversos movimentos anticoloniais (desde a oposição anti-salazarista até aos palestinianos), sendo por isso um inimigo histórico tanto de Israel como de Marrocos.

Segundo, porque a monarquia marroquina recorreu muitas vezes ao apoio de Israel para se manter no poder. Ainda recentemente, o governo marroquino foi um dos Estados que mais investiu em tecnologias autoritárias israelitas para controlar o seu próprio povo.

A Rússia já tinha aberto esta política de conflito híbrido e de estratégia de utilização e organização de fluxos migratórios para pressionar e desestabilizar países de forma consciente e estratégica. Fê-lo para pressionar a Europa na primeira fase do conflito na Ucrânia. Agora, no entanto, chegámos a outro nível.

Rapidamente, as forças de esquerda, por um lado, e aquelas que defendem o Estado de direito e os direitos humanos, por outro, terão de adaptar os seus discursos e as suas políticas para fazer frente a esta nova fase, em que os fluxos migratórios não são apenas consequência das desigualdades estruturais do sistema-mundo capitalista, mas também são utilizados como arma política.

Entramos numa fase em que as "invasões de migrantes" já não são tanto consequência de um "choque de civilizações" ou de uma "substituição populacional", mas sim de uma estratégia política e geopolítica de grupos e Estados de extrema-direita para destruir Estados e desestabilizar regimes.


 
 
pessoas
Jonas Van Vossole



 
temas
imigração    ceuta    Espanha    Marrocos