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03-08-2026        Expresso

Às duas da tarde, o meu telemóvel começou a tocar. Não era uma chamada, nem uma mensagem. Era o primeiro teste nacional do novo sistema australiano de alertas de emergência (AusAlert), concebido para avisar a população em caso de incêndios, inundações, terramotos ou outras situações de perigo iminente.

Durante toda a semana, os meios de comunicação tinham anunciado o teste. Explicaram a que horas aconteceria, como seria o som – bastante alto, semelhante a uma sirene, durante dez segundos – e o que significava. A campanha de informação repetiu várias vezes uma recomendação: quem tivesse um telemóvel escondido por razões de segurança deveria desligá-lo ou colocá-lo em modo de voo antes do teste. Quando a ouvi pela primeira vez, admito – com vergonha – que demorei alguns segundos a aperceber-me do óbvio: aquele telemóvel escondido é o telemóvel de uma vítima de violência doméstica.

Muitas vítimas mantêm um segundo telemóvel escondido do agressor, para poderem contactar a polícia, familiares ou serviços de apoio sem serem descobertas. O sistema AusAlert foi concebido precisamente para se sobrepor ao modo silencioso e emitir um som impossível de ignorar. O alerta que pode salvar uma família de um incêndio é o mesmo que pode denunciar uma vítima ao seu agressor.

A recomendação reiterada sobre o telemóvel escondido não é apenas uma boa ideia: é a expressão de uma forma de pensar as políticas públicas que merece ser destacada. Alguém começou por fazer a pergunta certa: como proteger toda a população sem, inadvertidamente, colocar uma parte dela em risco?

O aviso não surgiu por acaso. Resulta de uma premissa simples mas crucial: quem concebe uma medida não conhece todas as vidas sobre as quais esta irá incidir. É precisamente por isso que deve ouvir quem acompanha, investiga e, principalmente, vive essas realidades. Na Austrália (como antes no Reino Unido), o desenvolvimento do sistema de alerta envolveu organizações que trabalham diariamente com vítimas de violência doméstica, profissionais no terreno, investigadores que estudam estas dinâmicas e as próprias pessoas diretamente afetadas.

O processo não foi linear nem isento de divergências, mas permitiu identificar riscos, rever recomendações de segurança e adaptar a forma como a informação foi comunicada. O resultado não foi um relatório para ficar numa gaveta. Foi uma alteração concreta da própria política pública: um detalhe que pode fazer toda a diferença para quem vive sob controlo coercivo, preservando um meio essencial de pedir ajuda.

É isto que acontece quando a segurança humana deixa de ser apenas um conceito e passa a orientar o desenho de políticas públicas. Durante décadas, habituámo-nos a pensar a segurança sobretudo em função das ameaças externas: guerras, criminalidade, catástrofes naturais. A segurança humana convidou-nos a deslocar o olhar: das ameaças para a forma como as pessoas as vivem.

Essa mudança, porém, só produz consequências se alterar a forma como as políticas públicas são concebidas. Um sistema de alerta de emergência existe para proteger toda a população. Quem o concebeu reconheceu, no entanto, que uma política universal pode criar riscos para quem vive situações de especial vulnerabilidade. Em vez de assumir que mais alertas significam automaticamente mais segurança, percebeu que uma política pensada para todos não protege necessariamente todos da mesma forma. Que, para algumas pessoas, a violência não está só lá fora, está cá dentro.

Centrar as políticas públicas na segurança humana é concebê-las a partir dessa diversidade de experiências, e não apenas da ameaça a que procuram responder. Significa antecipar, desde a sua conceção, os impactos diferenciados em função do género, da raça, da idade, da deficiência, da condição socioeconómica ou de tantas outras circunstâncias que moldam a forma como cada pessoa vive a segurança. Não para fragmentar políticas públicas, mas para as tornar verdadeiramente inclusivas.

É isto que está contemplado naquele aviso sobre um telemóvel escondido. Não apenas uma preocupação com as vítimas de violência doméstica – e conhecimento da sua realidade, dos seus constrangimentos e das suas estratégias de sobrevivência –, mas uma demonstração, infelizmente ainda infrequente, de como a teoria da segurança humana se pode transformar numa prática de boa governação.

Quando os nossos telemóveis tocaram, à hora marcada, eu e quem estava comigo no gabinete, imersos nos respetivos computadores e protegidos pelo nosso privilégio, já nos tínhamos esquecido de que o teste iria acontecer. Mas, em várias casas da Austrália, houve quem esperasse, com o coração nas mãos, pela confirmação de que o seu telemóvel escondido continuava seguro. E de que uma possível saída também.


 
 
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Teresa Almeida Cravo