O primeiro-ministro (PM) tem feito passar a ideia de que não vai ter férias. Do seu gabinete saiu a informação de que "pretende gozar apenas alguns fins de semana e um ou outro dia esporádico". Toma tal atitude com uma certa carga de exemplo para os portugueses, depois de ter considerado imprudentes os pais de alunos que viram as suas férias estragadas por as terem marcado de acordo com a lei e confiando no Governo, e quando aumenta a população que trabalha em Portugal que não goza férias.
O facto dos governantes e outros atores políticos e sociais terem de fazer alguns sacrifícios em condições de excecionalidade são "ossos do ofício". Por isso dispõem de oportunidades propiciadores de descompressão que se situam no campo amplo das relações sociais e culturais e do lazer. O nosso PM e todos os seus antecessores e sucessores têm o direito a usufruir desses momentos. O que não podem é tomar a excecionalidade da sua condição, que é privilegiada, para insinuar a desvalorização de um direto universal importante para o comum dos cidadãos.
O trabalho não pode ter apenas a função económico/produtivista. Há muita mais vida para além do trabalho, que este deve servir. Está inscrito na Constituição da República que, "todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, cidadania, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, têm direito: ao repouso e aos lazeres, a um limite máximo da jornada de trabalho, ao descanso semanal e a férias periódicas pagas." É a este trabalho digno e a estas férias que todos os trabalhadores que laboram em Portugal têm direito. De coluna erguida, sem servidão.
Num tempo em que se aproxima o debate do Orçamento do Estado, em que a situação da União Europeia e Internacional é complicada, em que não se vislumbra o que pode acontecer com os "nim" de Belém, talvez o PM fizesse bem impor a si mesmo umas certas férias (andará a pensar em algumas?), até porque sabe bem que a sua pretensa abdicação de férias não colmata as falhas dos seus ministros.
As políticas que o Governo prossegue são, na sua maioria, carregadas de dualismos e as alianças políticas erráticas e de reforço do neoliberalismo, em que parece querer apostar forte, acelerarão a marcha à ré em vários setores. Na ação da sua governação impera o fechamento ideológico, o improviso e a sobranceria. É desaproveitado o conhecimento científico e empírico existente, numa quase obsessão por ignorar o que outros fizeram. Observa-se, por outro lado, uma absoluta falta de sentido do que é a responsabilidade dos atores políticos.
Hoje, na Educação, na Saúde, na Administração Interna e em mais algumas áreas já temos governantes encapsulados em narrativas mentirosas, fazendo lembrar as governações de antes do 25 de Abril. Nessa altura, o povo estava sempre errado, não era capaz de reconhecer a bondade e o espírito de sacrifício e de servir dos seus governantes.