Na passada quinta-feira, na Assembleia da República, não existiu um verdadeiro debate sobre o Estado da Nação. Essa incapacidade, corporizada em primeiro lugar pelo Governo e, de forma relativa, por cada uma das forças políticas que compõem o Parlamento, não pode cristalizar-se. Não podemos ficar de braços cruzados à espera que aconteça um qualquer milagre ou uma verdadeira catástrofe, ou seja, uma partida do Diabo.
O primeiro-ministro, que está em funções há mais de dois anos, fez de conta que só agora tomou conhecimento dos reais problemas do país e começou por atacar "a oposição", fazendo, como tanto gosta, a amálgama Chega/PS. Fê-lo, porque os êxitos da sua governação têm pés de barro e se corporizam em destruidoras "reformas" de cariz neoliberal primário que tolhem o nosso futuro coletivo.
O PM mencionou, como grande feito do seu Governo, que "nos últimos dois anos, os salários médios em Portugal cresceram 14,1%". É falso. Por três razões: primeira, nos acordos de concertação que assinou, o referencial indicativo era bem mais baixo, logo, por ele não teriam crescido tanto; segundo, o valor a que se refere é rendimento por trabalhador que inclui prémios e outras remunerações extra e não salário; terceiro, quanto tinham os salários de crescer para cobrir o agravamento, nomeadamente, dos preços da habitação e da energia que os trabalhadores tiveram nos últimos dois anos?
Os efeitos desastrosos das políticas seguidas na habitação, na saúde e na escola, a par dos comportamentos éticos de alguns ministros e do PM, tomaram conta de boa parte do debate. O Governo foi incapaz de situar o lastro da governação do país no plano nacional e internacional e surgiu exaurido. As imensas áreas das políticas económicas e sociais, industriais, culturais, da justiça e outras estiveram quase ausentes. Em relação a situações de crise e catástrofe que o país viveu, confirmou-se que o Governo chegou muitas vezes tarde e agiu de forma atabalhoada.
Em certos momentos, pareceu que Luís Montenegro estava a ensaiar encostar-se à parede a ver se o povo tem dó dele e o vai de lá tirar. As sondagens últimas não mostram essa predisposição dos cidadãos. Talvez seja avisado termos presente que as leituras sobre a fadiga democrática dos portugueses têm necessitado de vários ajustes e que o tempo político que vivemos exige muita mais ação política que aquela que decorre do voto e se exerce nos órgãos de soberania e instituições.
A discussão sobre o Orçamento do Estado para 2027 está aí à porta. É tempo de discutir política a sério: como o país pode romper com os bloqueios que o aprisionam, no plano nacional e externo, e desenvolver-se. Como garantir os nossos direitos fundamentais, o trabalho digno e o sistema público, solidário e universal da Segurança Social. Como revitalizar o poder local democrático, tornando-o de novo ancoradouro de mobilização dos cidadãos, para a resolução dos seus problemas concretos.