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11-07-2026        Jornal de Notícias

O ano letivo 2025/2026 será o primeiro na história da democracia em que teremos alteração do calendário dos exames nacionais em resultado de desacertos, incompetência e ruturas nas estruturas da administração educativa. É da responsabilidade exclusiva do Ministério da Educação.

Na condução do processo inerente à utilização da digitalização das provas de exame para efeitos da sua correção e classificação, o ministro da Educação teve ausência de rigor, de humildade e de princípios éticos. Não acarinhou os jovens que vivem em ansiedade; catalogou como "imprudentes" pais que acreditaram nos calendários de exames divulgados pelo próprio Ministério para marcar viagens, férias ou celebrações familiares, que agora têm de remarcar. Esqueceu-se de que, por lei, quem trabalha tem de marcar férias até 31 de março. Tratou mal diretores de escolas e em particular os sindicalistas, em relação aos quais é preconceituoso.

Entretanto, quando lhe é perguntado se a empresa X envolvida no processo - que terá celebrado um contrato de valor Y (de milhões) com o Estado - pode estar a falhar, aí, o Sr. Ministro trava às quatro rodas e o silêncio instala-se. Nada de beliscar competências de atores privados. Aqui, entram os fatores que tolhem as suas capacidades como ministro.

O liberalismo económico, em rédea solta e em aliança com forças fascistas ou ultraconservadoras, está a aniquilar o bem comum e a democracia. As crises ampliam-se e estamos num caminho de concentração de riqueza sem paralelo na história da humanidade: nem no tempo dos faraós. É dramático o que se esboça hoje como poder individual sem controlo, basta observar a pretensão afirmada esta semana por Elon Musk de lançar no espaço um milhão de satélites. A sociedade está tomada pela bebedeira dos fundamentalismos financeiro e tecnológico: "liberdade" absoluta para a riqueza individual e a submissão da cidadania à tecnologia (aos seus detentores).

O que se está a passar, em Portugal, com a utilização da digitalização para correção e classificação das provas de exame no Ensino Secundário é um caso microdemonstrativo da gravidade da confusão entre as potencialidades de uma tecnologia e os resultados efetivos da sua aplicação.

Muitas mudanças estão em marcha na educação, no ensino, na investigação, carregadas de perigos para os quais é preciso estarmos despertos: i) a crença no determinismo tecnológico e na supremacia do privado é tal, que testes e garantias tenderão a ser dispensadas; ii) há riscos de serem colocados dados valiosos nas mãos de entidades não fiáveis e sem segurança; iii) o Estado pode perder capacidade de desenvolver e controlar bons sistemas tecnológicos ao serviço da escola pública de qualidade que tende a sair deste processo empobrecida.

O Senhor Presidente da República prometeu atenção ao desfecho do imbróglio do sistema de avaliação. Será importante que o faça prolongando a observação para tudo o que está em mudança no setor.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
temas
exames    educação    ensino    investigação    democracia