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25-06-2026        Público

Por que é impossível a transparência na vida social? Quais são os mecanismos socioculturais que barram o verdadeiro exercício da democracia nas instituições políticas? Quais os poderes paralelos que operam nas estruturas partidárias e organizacionais como forças bloqueadoras do debate democrático? Como caracterizar a tensão existente entre lideranças emergentes, que atuam junto das bases, e os poderes instalados, que seguem a lógica da hierarquia?

Vivemos hoje num mundo onde as subjetividades e os comportamentos deixaram de obedecer a modelos racionais de pensamento, ficando cada vez mais ao sabor de códigos e referências que colocam – através das perceções criadas no subconsciente – amplos segmentos sociais ao serviço de modelos de consumo ou de narrativas políticas simplificadoras e populistas. Essas forças ganham agora uma nova relevância perante o novo mundo digital em expansão. Na verdade, a chegada da Inteligência Artificial (IA) e a sua rápida aceleração, está a colocar em causa os nossos modos de pensar e de agir, impondo novas dinâmicas de ação onde as relações sociais se reinventam a cada dia e onde os valores morais são obstruídos pela dimensão ficcional, condicionada pela programação algorítmica, nas quais se reconfiguram e confundem o real e o imaginário, o verdadeiro e o falso.

No entanto, mesmo perante tão impressionante revolução no mundo digital, a construção social da realidade (teorizada por diversos clássicos da sociologia) obedece, hoje como ontem, a esquemas cognitivos altamente complexos e paradoxais. Daí que, mesmo as novas dinâmicas epistémicas criadas pelo campo digital e pela IA são matérias que podem ser analisadas, por exemplo, com recurso à teoria organizacional e à psicossociologia. Por outras palavras, os labirintos por onde se perdem as nossas perceções individuais tornaram-se indissociáveis das relações paralelas de poder que operam no plano societal e nos interstícios das instituições. Existe uma estreita conexão entre as representações (e comportamentos) dos indivíduos e os processos sociais em estruturação no plano sistémico. Por outro lado, a psicologia social e cognitiva há muito demonstrou a descoincidência entre a realidade e as perceções subjetivas, um domínio que se liga a inúmeras patologias e
problemas neurológicos altamente complexos. E é daí que muitas vezes surgem situações de duplicidade entre o real e o virtual, atitudes de auto negação em que a narrativa gerada procura negar a realidade. Exemplos disso são a síndrome do homicida, do alcoólico ou do pedófilo, em que a fuga leva os indivíduos a mentir a si próprios como forma de preservar a sua autoestima, cedendo a uma pulsão do subconsciente.

Ora, no atual contexto de mediatização e dos aplicativos digitais, este fenómeno está a deslocar-se do domínio da psicologia para a esfera pública, com implicações diretas na vida política, que ameaçam tornar-se devastadoras. Do ponto de vista subjetivo, pode ser visto como um impulso de racionalização, em que o sujeito se debate com um subconsciente atormentado e que insiste em sair cá para fora. Porém, podemos daí inferir para a escala social onde é possível observar um padrão comportamental no interior de grandes organizações ou estruturas institucionais. Essa é uma força sociológica inelutável que se impõe aos agentes do sistema e lhe define as respostas que é obrigado a dar em função das circunstâncias.

Tomemos o exemplo dos partidos políticos com vocação de poder. A lógica organizacional, perante o crescimento das estruturas partidárias (ou de outro tipo de associações de grande dimensão) tende a produzir um conjunto de mecanismos psicossociais que convocam o clássico conceito de «lei de ferro das oligarquias» (cunhado por Robert Michels), ou seja, uma lógica de poder paralelo que se autojustifica por alegada falta de alternativa (“ou eu ou o caos”…) mas que efetivamente pretende apenas perpetuar os lugares de liderança. Porém, se essa foi uma leitura certeira para uma realidade de há cerca de cem anos atrás, ela necessita hoje de ser atualizada face ao mundo do século XXI. O que dela permanece atual prende-se com a questão do poder, isto é, o poder de decidir sobre outrem, de escolher, de influenciar audiências e conquistar votos é algo que, uma vez adquirido, não permite que dele se abdique. Os cargos ocupados autojustificam-se sob o pretexto de uma legitimidade (jurídica ou democrática...) mas na verdade obedecem à defesa de um poder simbólico imune a qualquer profanação.

É por isso que a ideia de rotatividade, que Norbert Bobbio considerou inerente à democracia, é tantas vezes ignorada e subvertida. Por outro lado, as lideranças, que no passado resultavam da capacidade de ação, da coragem, da inteligência e do carisma de cada um, na sua relação com o coletivo, tornaram-se nos últimos tempos o desfecho resultante da combinação entre o alinhamento acrítico com o núcleo mais forte (em especial no caso dos partidos) e a capacidade de angariar apoios (dinheiro e votos) com base na troca de favores ou no caciquismo ou noutros métodos ilícitos, senão mesmo criminosos.

Em suma, esta complexidade psicológica e sociocultural obriga-nos a questionar as velhas fórmulas do poder legítimo (legalidade, tradição e carisma), hoje drasticamente adulteradas. A própria razão moral, justificada na base de uma orientação pelos valores, tornou-se subsumida sob a pressão esmagadora dos interesses materiais e de um “status performativo” que devolve a cada protagonista a ilusão do seu intocável prestígio. É também por isso que o «carisma» se tornou um simulacro altamente fabricado segundo os moldes do mundo virtual da IA, que ameaça gerar novos atores – talvez até pós-humanos, mas «carismáticos» q.b. – produzidos à medida das competências necessárias a perpetuar os mecanismos de um sistema à prova de democracia. Olhando o panorama partidário atual, já são incontáveis os exemplos em que os protagonistas exercitam simulacros de liderança – e de sedução com roupagens de humanismo – ao mesmo tempo que usam todos os meios para anular os mais incipientes esforços de uma democracia efetiva e transparente.


 
 
pessoas
Elísio Estanque



 
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oligarquia    democracia    poder