As designadas novas direitas são velhos projetos políticos, económicos, sociais e culturais em contextos novos, também no nosso país. O seu campo de influência e ação tem sido conseguido a partir de uma brutal devastação social onde têm o duplo papel de motores e beneficiários. Observemos de onde ela emana.
A fonte mais direta tem sido o ataque ao Estado social de direito democrático das últimas décadas, feito muitas vezes por forças creditadas como da democracia. Foi desvalorizado o emprego, as formações, os salários e muitas pensões de reforma, foram destruídos equilíbrios entre o individual e o coletivo, frustraram-se gerações que em vão apostaram na sua formação, o acesso à habitação tornou-se uma miragem. Registe-se que há fronteiras difusas, entre neoliberais e ultraconservadores e fascistas, a que no plano nacional devemos dar atenção face a contextos concretos.
Por estes dias soubemos que está em crescendo o número de imigrantes desencorajados, confirmam-se novos bloqueios aos estudantes do Ensino Superior economicamente mais frágeis, aparecem mais casos de idosos maltratados em instituições e nestas escasseiam condições de acolhimento e trabalhadores com formação e vencimentos dignos. Isto tudo acontece porque falta democracia, mas aquelas novas direitas dizem que é culpa da democracia. E a memória do povo é tão massacrada que, às vezes, se torna curta.
Os extraordinários avanços científicos e tecnológicos são instrumentos do progresso, mas esses velhos projetos políticos impingiram o deslumbramento tecnológico à sociedade e conseguem que apenas uma ínfima parte do resultado da sua aplicação seja colocada ao serviço das pessoas. O aumento da exploração de milhões de seres humanos é justificado, de forma cínica, exatamente pelo efeito desses avanços, como vemos na argumentação do Governo, da IL e também do Chega, nas alterações às leis laborais.
Os meios do Estado são colocados ao serviço de interesses privados, absolutamente desconectados da responsabilidade social. À escala global tivemos o folhetim da entrada em bolsa da SpaceX. A insuspeita CNN apresentou investigação sobre o apoio decisivo do Estado norte-americano àquela enorme plataforma liderada por Elon Musk e a sua dependência absoluta do cliente Estado. Esse "criativo" de negócios de "futuro" (nem que seja vender água em Plutão) está-se borrifando para as políticas sociais e para o desenvolvimento económico. É inimigo do bem comum e do Estado social, mas encanta os neoliberais. E, por todo o lado, puxa fascistas para o poder.
No nosso país, prepara-se a corrida à "condição de novos donos disto tudo", desenhada para retrocessos nos planos ético e do direito, para acentuar exploração e agudizar ódios (inclusive de classe), para aumentar a subjugação económica.
Os argumentos da IL e as manobras do Chega em torno do pacote laboral evidenciaram-nos como representantes de muitos que se apresentam ansiosos na linha de partida.