Faz hoje 52 anos, os militares do MFA, cansados de uma guerra injusta e sem saída e de políticas e políticos que aprisionavam e tolhiam as capacidades e sonhos de todo um povo, agiram com um profundo sentido patriótico e uma generosidade ímpar. Correndo elevados riscos, os Capitães de Abril ofereceram ao povo português a possibilidade de este tomar em mãos a criação de um regime político democrático, que começou a ser trabalhado no próprio dia 25 de Abril e ficou moldado com a entrada em vigor da Constituição da República a 2 de Abril de 1976.
Celebremos este período de liberdade, sem polícia e repressão políticas, sem censura prévia. Celebremos a imensa alegria das mães, irmãs e namoradas dos jovens que estavam na guerra, ou a caminho de para lá irem, quando eclodiu Abril. Só mentes doentes concebem que o anacrónico colonialismo e a guerra podiam continuar. Hoje impõe-se dizer não a outras guerras.
As grandes conquistas de Abril foram construídas com trabalho bem produtivo e pensando no bem comum. Para cada português e para o país é enorme o valor económico do SNS, da escola pública, do sistema público, universal e solidário da Segurança Social - as contas certas dos últimos governos ancoram-se quase só nos resultados positivos dos orçamentos da Segurança Social. Colocados ao serviço do livre negócio, como vem acontecendo e se tem acelerado com a maioria PSD/extrema-direita, são direitos constitucionais fundamentais que serão postos em causa.
Lembremos que Abril trouxe a liberdade da iniciativa privada, imensas oportunidades de negócio e até a liberdade de organização patronal. Mas, Abril não foi feito para favorecer a promiscuidade de negócios público/privados, nem para ampliar a riqueza escandalosa dos muito ricos. Agora, no complexo quadro político e económico atual, há quem veja uma oportunidade de regresso ao passado: sonham com um "abril" do individualismo, do egoísmo, do mérito dos privilegiados e daqueles que se apropriam da produção e distribuição da riqueza. Sonham com um mundo de poucos ou nenhuns direitos no trabalho, sociais e políticos.
Abril foi feito para os que lutavam e lutam por melhores salários e condições de vida. Para que as crianças e os jovens passassem a ter escola onde ir e a terem mais e melhor educação, objetivos atingidos, mas agora a escola tem novas exigências e somos uma sociedade mais plural e complexa. Abril tirou os velhos da miséria absoluta, mas hoje muitos continuam na pobreza, prisioneiros de uma "economia que mata" e de políticas orçamentais que só inscrevem compromissos permanentes com os ricos. As vilas e aldeias foram eletrificadas e lá chegou água canalizada e infraestruturas, porém, hoje desertificam-se perigosamente. Abril comprometeu-se com o direito à habitação, que nos obriga a gritar todos os dias para não ser esquecido.
É possível e necessário defender e ampliar o que já foi feito. Sempre com dignidade e respeito pelos outros.