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20-04-2026        Público

A universidade portuguesa, durante este ano que volveu sobre a sua morte, em abril de 2025, prestou a João Cravinho a devida homenagem. Não se tratou apenas de honrar a sua memória, de lhe prestar reconhecimento pelo muito que fez, de lhe agradecer o serviço público — tratou-se também, e sobretudo, de o estudar. Estudar o que escreveu, as instituições que criou, o pensamento que firmou, as propostas que fez, as perspetivas que desenvolveu e consolidou, o modo como participou nos debates públicos, o lugar que ocupou entre os economistas mais marcantes das últimas décadas.

Foi tudo isto que permitiu dar o título “João Cravinho: uma obra imensa”, o mesmo deste artigo, a um ciclo de seminários que se iniciou na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (em setembro de 2025), prosseguiu em Lisboa, no Instituto Superior de Economia e Gestão (outubro de 2025) e no Iscte – Instituto Universitário de Lisboa (novembro de 2025), e culminou na Faculdade de Economia da Universidade do Porto e na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve (em fevereiro de 2026). Este ciclo foi da responsabilidade do projeto de investigação A Economia Política da Construção da Democracia: sistema produtivo e de emprego, provisão pública e instituições, aprovado e apoiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), de cuja equipa faço parte.

Em cada um destes seminários esteve institucionalmente presente o responsável máximo de cada uma das escolas, e participaram investigadores daquele projeto, estudiosos das matérias em debate, assim como economistas que trabalharam diretamente com João Cravinho no GEBEI – Grupo de Estudos Básicos de Economia Industrial, por ele criado no âmbito da Secretaria de Estado da Indústria logo nos inícios dos anos de 1970, e que é justamente reconhecido como uma das mais relevantes instâncias de desenvolvimento entre nós de um pensamento económico inovador, assente no estudo minucioso do muito que era necessário conhecer para que se compreendesse como uma economia periférica e frágil como a portuguesa funcionava: da matriz de relações interindustriais (as matrizes input-output) aos multiplicadores, aos consumos energéticos, à pauta aduaneira (a proteção efetiva da produção nacional), à função consumo, aos stocks de capital, aos níveis tecnológicos, às contas de rendimento das regiões. Um conhecimento básico e essencial inexistente, sem o qual não se podia discutir a tímida integração iniciada com a presença na criação da EFTA (Associação Europeia de Comércio Livre, na sigla em inglês) ou o acordo com o Mercado Comum de 1972. E sem o qual não se podia dar espessura substantiva à democracia que se adivinhava e para a qual era necessário mobilizar saberes e bases para a decisão, como realmente veio a acontecer a partir daquele “dia inicial inteiro e limpo” em que “livres habitamos a substância do tempo”.

Fundada neste lugar marcante, a obra de João Cravinho prosseguiu enquanto teórico esclarecido do significado do planeamento em sociedades como a nossa. Preocupado em alcançar uma “visão estrutural e sistémica”, sabia o que seria necessário num “ecossistema de planeamento” e fez do GEBEI um think-tank para servir o país: “O que me interessava era a transformação estrutural”, dizia. Fez dele um lugar de relações com os que, em Portugal, iniciavam o desenvolvimento dos seus estudos de doutoramento. Relacionou-o com as melhores instâncias internacionais. E assumiu isso durante este meio século de democracia, desde os momentos iniciais: como governante, como parlamentar, como estudioso de um Estado descentralizado e regionalizado (relembro a presidência da Comissão Independente para a Descentralização criada na Assembleia da República, cujo relatório devíamos estar hoje a discutir, perante um país deslaçado por intempéries e que tem de saber governar os seus recursos mais elementares), como veemente crítico de uma opção sobre a construção do novo aeroporto que classificou devidamente neste jornal, como insubmisso proponente de iniciativas contra a corrupção, pelas quais tem também sido reconhecido ao longo deste ano.

Este é ainda o momento de recordar duas outras coisas. Uma é que João Cravinho foi, desde cedo, parte essencial de uma “comunidade epistémica”, esclarecida e conhecedora, que entre si debatia com rara profundidade ideias que marcavam o pensamento mais avançado no mundo: sobre a economia, as tecnologias, as instituições, os métodos de investigação, a sociologia, a organização dos governos. Mais nomes poderiam ser referidos, mas aponto apenas os de João Martins Pereira, Francisco Pereira de Moura, Mário Murteira e Manuela Silva, todos eles membros de governos e também estudados no projeto que referi. No Portugal de antes de Abril havia conhecimento, intuições fundadas sobre o que era essencial fazer, capacidade para governar, só faltava uma coisa: democracia. Quando ela aconteceu, foi possível organizar o país e qualificá-lo. Por isso, a segunda coisa a relembrar é que, entre a grande intensidade das relações e dos debates de construção da democracia, houve um caminho de evolução económica (o ciclo de crescimento que vai entre 1975 e 1984 é tão importante como o que vai de 1985 a 1993) e de estruturação da sociedade (escola, Serviço Nacional de Saúde, Segurança Social). De tal forma que é um ciclo muito mais positivo que o da transição espanhola em quase todos os indicadores, sobretudo nos principais. Os resultados do nosso estudo mostram isso com clareza. Uma hipótese razoável é compreender que, junto com a mobilização e participação populares, houve na nossa governação elites informadas e capazes que se tinham capacitado criticamente e não estiveram numa transição negociada na antecâmara do lugar onde o ditador agonizava. É também isto que estudamos naquele projeto.

Os trabalhos iniciais de João Cravinho foram sobre produtividade e os derradeiros também. Era sobre isso que trabalhava nos últimos anos e dias da sua vida. E fazia-o porque tinha a maior das inquietações sobre um país cuja capacidade organizacional, lógica de formação e uso de recursos não se orientam pela sua valorização, um país que descuida o território, o sistema produtivo e o sistema de emprego. A boa notícia, que aqui quero deixar, é que a obra de João Cravinho está a ser estudada e o seu pensamento servirá a quem continue a inquietar-se e a achar que é possível bater-se por causas públicas que nos engrandeçam.


 
 
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José Reis



 
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