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18-04-2026        Jornal de Notícias

Como ontem foi escrito neste jornal a propósito do retrato brutal da desigualdade em Portugal", há números que não podem ser tratados com discursos suavizados ou moderados. Temos desigualdades porque não temos crescimento económico? Não! Temos desigualdades profundas porque existe má distribuição da riqueza produzida e da riqueza patrimonial; porque os próprios meios e capacidades para produzir riqueza estão mal distribuídos e em muitos casos subaproveitados. Necessitamos de persistir na busca da verdade, de denúncia da exploração a que o rançoso liberalismo económico nos sujeita, de combate à escuridão que a ultradireita quer impor.

O jornal britânico "The Guardian", na sua edição do dia 15, concluía que "as grandes petrolíferas obtêm enormes lucros inesperados com a guerra à custa dos consumidores: 30 milhões de dólares por hora". Na mesma edição informava que "bloqueadores da ação climática, incluindo a Arábia Saudita, a Rússia e grandes empresas de combustíveis fósseis, deverão obter mais 234 mil milhões de dólares até ao final de 2026". Em regra, os países reagem com pinças a estes autênticos roubos. Entretanto, quando for preciso, os governos de turno impõem legislações laborais e sociais duras (as tão propaladas reformas) para equilibrar o funcionamento do sistema.

O FMI, na passada terça-feira, dava conta dos efeitos inflacionistas, vindos da guerra contra o Irão, com especial realce sobre a energia e o setor da alimentação. As projeções daquela instituição são preocupantes para a vida das pessoas num cenário de guerra com curta duração: já está adquirido um grande impacto. Mas, serão muito duras no que designam por cenário "adverso" e muitíssimo pesadas no que definem como "cenário severo". É quase certo que a economia mundial vai sofrer turbulências complicadas e, acima de tudo, as faturas que pagamos por gás, petróleo, produtos alimentares, bens de primeira necessidade ou deslocações, vão ser pesadas. No meio dessa engrenagem, grandes plataformas empresariais aumentarão exponencialmente os lucros.

No dia 16, no debate quinzenal na Assembleia da República, Luís Montenegro, desafiado por forças da Oposição a adotar medidas que possam minorar os elevados custos dos alimentos e dos combustíveis, desde logo para os mais necessitados, convocou de imediato o papão do descontrolo das contas públicas. Fez de conta que a inflação ainda não é real, apenas "pode acontecer". Disse que "alguma prudência é necessária", ou seja, o pobre tem de sentir o sabor da pobreza e dessa prova dar provas públicas para merecer a esmola.

A persistência do Governo no pacote laboral surge, assim, com tripla gravidade: i) não cumpre nenhuma das bondades que propagandeia; ii) acentua os problemas vindos da conjuntura atrás descrita; iii) aumenta os riscos da população imigrante não se fixar no nosso país. Quando as injustiças são profundas, persistentes e carregadas de violência, estamos perante maldade pura e dura.


 
 
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Manuel Carvalho da Silva



 
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