Centro de Estudos Sociais
sala de imprensa do CES
RSS Canal CES
facebook CES
youtube CES
28-03-2026        Jornal de Notícias

Entramos na primavera, e em tempo de Páscoa, mas as guerras em curso ameaçam-nos com o prolongamento de um inverno gelado. Vivemos tempos de indecência. Impera a manipulação dos factos, a mentira, o apagamento grotesco da memória, o egoísmo, a atração pelo retrocesso, a imposição de sacrifício ao outro como forma de "me" libertar.

O conhecimento científico e as tecnologias mais avançadas sempre foram utilizados nas guerras. São-no agora mais sofisticadamente, normalizando a destruição sem limites e o assassinato covarde. Os que têm o seu domínio surgem convencidos de que poderão aniquilar os inimigos (reais ou inventados) sem sofrerem perdas humanas e até materiais. A guerra surge, assim, como instrumento top para a facilitação de negócios que podem ir até à compra de países ou regiões. E também para bloquear uma mais justa distribuição da riqueza. As instituições, como a ONU, que travavam alguma coisa esses objetivos, são desacreditadas e desarmadas.

Na escola, no trabalho, na sociedade em geral, vêm sendo sobrevalorizados saberes, aprendizagens e atividades que servem a engrenagem da exploração e do belicismo, e subvalorizados os campos do saber necessários para a existência de vidas felizes. Quando nestes dias de início de primavera nos deliciamos com a luz solar, com o desabrochar renovado da vida em todos os seus reinos e pensamos que sem eles (e os ecossistemas que formam) não existiriam os seres humanos, somos conduzidos a refletir sobre quanto importantes são a antropologia, a história, as artes, a filosofia e outros campos do saber pouco cotados no mercado.

Não se pode abdicar da relação Homem/Sociedade/Natureza, nem da valorização do intelecto do ser humano. É ele que nos apetrecha com "capacidade para dar sentido, restrições, regras e dimensões ao universo e seus habitantes". Trump e Netanyahu, que se deliciam com a morte e o sofrimento de milhões e milhões de seres humanos, deviam saber que há o estreito de Ormuz e muitos outros estreitos e espaços territoriais que são estratégicos e transportam um longo registo de identificação com culturas e civilizações que é preciso respeitar. Deviam saber obedecer às regras para partilha pacífica do universo. Não o fazem. O seu objetivo é criar duros invernos a todos os que se opõem aos seus anseios egoístas e desumanos.

O brutal apagamento da memória, que nas últimas décadas tem sido cultivado, está a dar frutos bem amargos. A primavera traz-nos esperança, aponta a necessidade de arrumar a casa e a certeza do ressurgir da vida, desafiando-nos a gerar novas interpretações e formas de agir, sempre com a memória bem viva.

O aumento do custo de vida e outros duros impactos que estamos a sentir são causados pela guerra, mas também por novos e refinados mecanismos de exploração que invocam falsamente a guerra para se instalarem. Mas, bem conjugados os esforços, há forças suficientes para impedir que nos matem a primavera da democracia social e política.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
temas
guerra    manipulação    memória