Donald Trump assumiu a Presidência dos Estados Unidos da América (EUA) em 2017 e, novamente, em 2025, sob o lema de restaurar a grandeza do seu país — leia-se o sloganMake America Great Again, reapropriado no início do século XXI. Contudo, essa pretensa grandiosidade nem sempre se refletia na aplicação de meios para alcançar determinado fim. Por vezes, o método, como o uso da força, já representaria o objetivo em si mesmo. O recente bombardeamento do Irão, desde o final de fevereiro de 2026, corresponde a esse seu imperativo de espetáculo e demonstração de poder que Trump tanto aprecia.
Vale a pena analisar o modus operandi dos EUA durante a era Trump. Segundo o Presidente, a alegada grandeza norte-americana fora quer menosprezada pelos seus antecessores, quer extorquida por outras potências — em particular pela China e pela União Europeia — devido à ordem internacional centrada na abertura comercial e na negociação multilateral. Estes seus desígnios mantêm-se como os mais fáceis de interpretar, não apenas porque foram repetidamente evocados, mas também porque obedecem a uma lógica de afirmação política de interesses, isto é, de conexão entre meios e fins. Assim, recuperar a grandeza implica ainda contestar e enfrentar adversários políticos, abandonar determinadas organizações internacionais e objetar alianças antigas, a fim de restabelecer os termos de troca e impor os EUA como primus inter pares. Washington anunciou, por exemplo, a retirada, em 2025, de uma organização multilateral como a UNESCO (um meio), para deixar de financiar esse organismo internacional das Nações Unidas, no qual os EUA seriam, alegadamente, vilipendiados (um fim).
Apesar da lógica consistente (ainda que duvidosamente vantajosa a longo prazo) dessa política, o uso da força por parte de Trump nem sempre segue essa típica abordagem de meios e fins. Em muitos casos, o meio é o próprio fim: a grandeza última reside na totalidade da força de que os EUA dispõem. Para Trump, grandeza é força — e a força não se limita a ser um instrumento para alcançar um objetivo. Força requer ostentação, de preferência, demonstração espetacular e impunidade.
Trump já mostrara essa tendência entre 2017 e 2021, no seu primeiro mandato. Autorizou, por exemplo, o bombardeamento de militantes do ISIS no Afeganistão, em 2017. Tratava-se, aparentemente, de uma operação militar convencional, mas Washington fez questão de sublinhar a utilização da “mãe de todas as bombas”, a bomba mais poderosa não nuclear ao seu dispor. Não bastava cumprir o objetivo: a força fora ostentada. Mais tarde, em 2020, Trump autorizou a operação que matou Qassem Soleimani (general da guarda revolucionária iraniana). Simbolizou mais do que uma ação militar: Trump vangloriou-se do atentado e permitiu que decorresse abertamente num país fora do Irão, o Iraque, próximo do aeroporto internacional de Bagdade, com recurso à mais avançada tecnologia. A força manifestava-se abertamente, sem complacência.
As mesmas tendências persistem no seu segundo mandato. Embora seja possível interpretar algumas operações segundo a lógica de meios e fins, por vezes não é fácil discernir qual é o interesse claro dos EUA em certas ações. Paira no ar a ideia de que os EUA atuam por capricho porque podem. O rapto de Nicolás Maduro, em janeiro passado, decorreu de uma escalada de confrontos, mas permanece pouco nítido qual foi o benefício estratégico da operação na Venezuela. E, apesar da lenta libertação da maioria dos prisioneiros políticos venezuelanos, o regime mantém-se; porém, Washington pôde evidenciar novamente a sua capacidade militar.
Observa-se, em parte, esse denominador comum no ataque massivo em curso contra o Irão. Certamente, Trump procura punir Teerão por rejeitar a desnuclearização. A mudança de regime parece ser outro objetivo, embora não seja fácil discernir como tal pode ser alcançado apenas por meio de bombardeamentos. Sobra, portanto, a exibição da força, expondo-se os variados e poderosos meios de projeção militar que os EUA dispõem e a rapidez com que os podem aplicar. Deste modo, para Trump, além da procura obsessiva de protagonismo, o uso da força revela-se, simultaneamente, meio e fim.