Tais características mantiveram-se na progressiva difusão internacional da prática do Poetry Slam, que ocorreu de 1990 até aos dias de hoje. Difusão que constou na proliferação de numerosos coletivos locais, bem como na interligação em rede entre eles, internacional (como o campeonato mundial de Poetry Slam, cuja organização está baseada em Paris) ou nacional (como é o caso, em Portugal, da «Plataforma SLAM», surgida em Lisboa em 2014).
A Secção de Escrita e Leitura da Associação Académica de Coimbra (SESLA/AAC) encontra-se em funcionamento desde finais de 1997, sediada no prédio da AAC e pelas ruas da cidade de Coimbra, mantendo, desde então, relações com diversos coletivos e organizações, em Portugal e no estrangeiro. Nestes 27 anos de existência (durante os quais realizámos, entre saraus e tertúlias, apresentações de livros, oficinas de escrita e ocupações literárias pela cidade — um número impreciso de eventos na ordem da centena), pela sala das nossas reuniões passaram textos e publicações de nossa autoria, mas sobretudo provas de leitura e de escuta recíprocas. Tais como aquelas que também teriam facilitado, mais recentemente, o surgimento do coletivo Slam das Minas (2020) e das suas oficinas e iniciativas. Ou também como aquelas que permitiram trazer para Coimbra poetas e professores/as de calibre como Fernando Aguiar, Adriana Calcanhotto, Graça Capinha, Nuno Moura, Raquel Palmira e muitos mais.
A adesão da SESLA à plataforma Portugal SLAM ocorreu em 2016. Assim, competições anuais têm vindo, desde então, a acontecer na cidade — embora os primeiros Slams em Coimbra remontem a 2011, organizados pelo coletivo aranhiças e elefantes.
Também no intuito de descentralizar a competição nacional, poucos anos depois de a SESLA ter assumido um papel mais ativo na plataforma, a competição nacional de Poetry Slam chegou a ser realizada em Coimbra, em 2021. Data que marca também a vitória de Carol Braga, membro do Slam das Minas e primeira mulher a ganhar o Poetry Slam em Portugal. Antes dela, outro membro da SESLA tinha conquistado o título nacional em 2019, Lucerna do Moco.
Se toda a escrita poética permite, de alguma forma, «dizer algo» que, de outra forma, seria indizível, isso é ainda mais verdade no caso da poesia Slam. Nestes eventos, «passar uma mensagem» está literalmente ao alcance de qualquer um. Mas não só: também é possível ficar em silêncio e encarar o público, gaguejar, sussurrar, tremer ou gritar. Uma exceção — esta última e extrema modulação vocal — que pode tornar-se a regra.
Sempre houve, desde que nasceu, certa aversão a esse formato de leituras, se não diretamente aos textos apresentados. Há todo um conjunto de músicos, poetas, críticos e curiosos que podem torcer o nariz a algumas dessas performances. O elemento da competição entre slammers, em particular destaca-se, não raras vezes, como o alvo das dúvidas dos detratores, sejam eles mais ou menos aguerridos. E, talvez, mais ainda do que isso: as reações e os padrões sociais que esse formato de leituras pode desencadear no público. Penso, por exemplo, no uso abusivo da palavra-chave «credo» — gritada por vezes excessivamente pela plateia com o intuito de pressionar os/as jurados/as (em minoria), quando a pontuação atribuída for simplesmente menor do que 9 valores em 10.
Quem está agora a refletir sobre este ponto não é, de resto, uma das pessoas que melhor poderia prestar uma defesa adequada ao Poetry Slam. No entanto, o Poetry Slam representa, como todas as invenções mais recentes da poesia em relação ao (seu) público, algo vulnerável.
Parte das acusações ao Slam têm objetivamente que ver com as fraquezas do humano que dá a ver: a natureza humana, demasiado humana, da poesia. Ou melhor, de querer reinventá-la. Coisa essa que a poesia e os poetas parecem ter cessado de exigir de si há já algum tempo.
É ainda verdade, de resto, que, muitas vezes, tais ataques limitam-se a uma postura defensiva e superficial à frente do que está em jogo nestes eventos. Revelam assim, esses detratores, também as suas fraquezas, ao mesmo tempo que as escondem.
Fica muito mais fácil observar essa obviedade do que participar e intervir sobre (ou sob) ela.