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05-03-2026        Rua Larga

[Rua Larga, n.º 60]

A reflexão sobre a beleza tem inspirado variados contributos, atravessando lugares e tempos, influenciando formas de expressão artística e padrões estéticos, instigando debates científicos e ações de protesto. Dificilmente encontramos um tema tão volúvel e constante na forma abrangente como condiciona a gestão da vida quotidiana. A sua volatilidade decorre da apreciação necessariamente subjetiva que condiciona a sua natureza, variável conforme o contexto individual e/ou coletivo. Não obstante, o fascínio que o tema da beleza atrai ao longo da História confere‑lhe um caráter perene, inultrapassável, de infinita procura de um ideal que designamos por belo, admirável ou sublime.

De forma a contribuir para essa eterna discussão, proponho‑me a pensar o conceito de beleza a partir de dois eixos.

Por um lado, e de um modo mais imediato, falar em beleza é pensar no seu aspeto palpável, material, muitas vezes associado à corporalidade. A partir deste eixo, áreas do saber como a Sociologia mostraram como a beleza é uma construção sociocultural. Quando imposto com rigidez, sem atender à diversidade, o padrão de beleza dominante num determinado espaço‑tempo desencadeia pressões sociais para a conformidade que, por sua vez, podem espoletar perturbações do comportamento e comprometer o bem‑estar. Um desdobramento desta imposição de certos padrões alimenta a crescente incidência de formas de discriminação como capacitismo, gordofobia, racismo, transfobia, idadismo, e de discursos de ódio dirigidos a corpos que, por motivos como a pertença racial ou étnica, a performance de género, o aspeto e a sua leitura social, entre muitos outros, não encaixam na norma. Sobre este mesmo tema, escrevi em tempos que perfeitos são os corpos mutantes, expressão que deu título a um artigo publicado no Diário de Notícias (DN). Nesse artigo, defendi que:

«Nenhuma pessoa apresenta as mesmas características ao longo da vida. Somos seres mutantes, em constante movimento, corpos-projeto nos quais tudo se transforma — peso, altura, massa muscular, estrutura, densidade óssea, número de leucócitos ou valores do colesterol, mas também a pele mais ou menos hidratada, o comprimento das unhas e do cabelo, o que nos comove e mobiliza, o modo como aprendemos a ver mundo. A maior incidência estatística, em matéria de corpo, é a diversidade. Logo, artificial e violenta é a tentativa de disciplinar um corpo que, por definição e experiência, prossegue desordeiro. É dessa desordem que se produz vida, através de um corpo grávido que se transforma a cada segundo. É também dessa desordem que se produz o desejo, a empatia, a consciência antirracista, o reconhecimento de direitos a pessoas com diversidade funcional ou deficientes, pessoas trans e intersexo, pessoas com doença crónica ou cujos corpos não se encaixam numa claustrofóbica fórmula numérica.» (DN, 9 julho de 2017)

Esse mesmo texto terminava fazendo um apelo ao reconhecimento de padrões alternativos de beleza, um tema que recuperei mais tarde num capítulo sobre epistemologia, cidadania e monstruosidade, no qual demonstro como a cidadania tem vindo a ser construída em termos dicotómicos, que não só excluem como ativamente constroem experiências descartadas como monstruosas, remetidas para a vulnerabilidade extrema, com base em pressupostos injustos. (Santos, 2013)

Por outro lado, proponho um segundo eixo para repensar o que se entende por ideal de beleza, desta feita considerando que a expressão desse ideal pode ser imaterial, convocando emoções, princípios ou valores. Nesta linha, insere‑se o encantamento ou enlevo perante uma determinada música, poema ou paisagem, o compromisso com certas causas, o altruísmo, a empatia e a generosidade. Nesta mesma linha de pensamento acerca da imaterialidade da beleza, sugiro convocar um outro conceito porventura menos evidente, mas central a esta reflexão: a memória. Podemos pensar em memórias pessoais, associadas à genealogia, à história de infância, ao universo das famílias ou da escola, o tipo de memórias desencadeadas quando abrimos um antigo álbum de fotos nas quais nem sempre nos reconhecemos, embora saibamos que aquela imagem reproduz uma versão de nós. Mas a memória pode ser também coletiva, partindo da história de uma comunidade, de um grupo, de uma identidade. Em qualquer dos casos — memórias pessoais ou memórias coletivas —, entramos no terreno de uma beleza que resiste à imperfeita ausência, um resgate de uma história que corre o risco de desaparecer, uma tentativa de preservar aquilo cuja materialidade escapa ou que já não encontra correspondente material no presente.

Um exemplo ajudará a concretizar este argumento da memória enquanto beleza. Nos últimos anos, tenho trabalhado sobre envelhecimento, partindo de um ângulo descuidado pelos estudos académicos, mas também pelas políticas sociais e o próprio ativismo — o envelhecimento de pessoas LGBTQI+ ou, se quisermos, a velhice queer. O que significa para alguém, cuja vida, em boa parte, foi passada entre a criminalização e a ostracização, envelhecer no Portugal de 2025 onde o respaldo jurídico que garante igualdade e direitos parece ter chegado demasiadamente tarde? Como lidar com o medo iminente da perda de autonomia e a inevitabilidade da dependência de profissionais cuja formação não inclui capacitação para a diversidade sexual e de género? Tendo sobrevivido a um regime ditatorial e, posteriormente, à chamada crise da SIDA, muitas pessoas lésbicas, gays, bissexuais e trans estão hoje a envelhecer sozinhas e sem o devido apreço por tudo o que as suas vidas duramente vividas representou para o progresso que a democracia nos trouxe. Cada uma destas pessoas é uma História, uma enciclopédia, um manual de sobrevivência para tempos turbulentos.

Numa das centenas de entrevistas biográficas que fizemos em países como Eslovénia, Itália, Grécia, Malta e Portugal, alguém que luta diariamente com uma doença terminal disse‑me:

«Quando olho para as minhas estantes, os meus arquivos, as minhas pastas… é como se estivesse a ver álbuns de fotos de família ou fotografias de infância. É isso que está lá, faz parte daquela bolha que as pessoas queer constroem para si mesmas, para que possamos respirar dentro dela, para que possamos encontrar um espelho que nos faça companhia.»

Muitas das pessoas com quem tenho tido o privilégio de conversar ao longo dos anos possuem, de forma atomizada, uma série de aprendizagens, experiências, desejos e mundivisões que, quando analisados no seu conjunto, permitem conhecer a força de uma comunidade, mesmo quando essa comunidade esteve sempre dispersa por força das circunstâncias. Não temos, em Portugal, um coletivo queer sénior, como sucede na Grécia ou em Espanha, entre outros exemplos. Mas temos pedaços de histórias decorrentes de vidas individuais que, afinal, tanto têm em comum. É nossa responsabilidade, científica e cidadã, resgatar estas e outras Histórias por contar, devolvendo‑lhe a força da maré que lhe é inerente.

A beleza da memória reveste‑se aqui de uma aparente materialidade — o arquivo — que visa enfrentar uma ausência, deixando uma linha sem traço que sobreviva ao apagamento. Também Miguel Torga nos fala dessa linha sem traço, num poema escrito em 1946, numa ode «À Beleza». Vejamos:

Não tens corpo, nem pátria, nem família,

Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,

Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,

O que vem e o que foi.

[…]
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.

[…]
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,

Uma linha sem traço…

Termino este texto regressando ao seu início. O título escolhido, inspirado numa releitura desta extraordinária ode «À Beleza» de Torga, devolve‑nos uma pergunta subtil: pode uma linha sem traço subsistir? Por outras palavras, para onde vai a beleza da memória quando a ausência teima? Paul Preciado e Judith Butler falam‑nos de multitudes queer (Preciado, 2011) e corpos em aliança (Butler, 2015), revelando o poder que emana da agregação de narrativas e experiências. Assim como a união traz a força, também das memórias resgatadas resulta a sublime beleza da diversidade que resiste e que diz não.

Agradecimento:
Esta reflexão foi possível graças ao trabalho desenvolvido no âmbito do projeto TRACE — Queer Citizenship Over Time, que lidero no Cento de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra desde 2023, financiado pelo European Research Council (ERC-2021-COG, TRACE, 101044915). Neste âmbito, agradeço muito especialmente a Ana Lúcia Santos e Pedro Fidalgo.
 


 
 
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Ana Cristina Santos



 
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