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27-02-2026        Público

Há um equívoco persistente quando se fala de ciência: a ideia de que o conhecimento nasce em todo o lado de forma relativamente equilibrada, desde que haja talento, esforço e mérito. A realidade é bem diferente. A ciência, tal como a economia ou o poder político, tem geografia. E essa geografia é profundamente desigual.

Basta olhar para o mapa da ciência mundial para perceber que o conhecimento de maior impacto se concentra em poucos lugares. Algumas cidades acumulam universidades de prestígio, laboratórios bem financiados, redes internacionais densas e carreiras bem oleadas. Outras, a maioria, orbitam à distância, formando talento que, mais cedo ou mais tarde, parte. A ciência não escapa à lei da gravidade territorial.

Portugal conhece bem esta dinâmica. À escala global, ocupa uma posição periférica. À escala nacional, reproduz a mesma lógica. Lisboa concentra a maior parte das oportunidades científicas, o Porto surge como polo secundário, Coimbra ou Braga como putativas concorrentes, e o resto do território vive numa espécie de intermitência científica, dependente de projetos temporários, financiamento incerto e carreiras fragmentadas e precárias.

Durante as últimas décadas, investimos, e bem, na qualificação da população. Formámos mais licenciados, mestres e doutorados. Internacionalizámos universidades. Incentivámos a mobilidade. O problema é que o sistema científico não cresceu à mesma velocidade que as expectativas que ele próprio criou. E quando um sistema promete mais do que pode oferecer, as pessoas movem-se.

Foi assim que se consolidou uma diáspora científica portuguesa altamente qualificada. Investigadores formados em Portugal trabalham hoje em universidades e centros de investigação de referência na Europa, nos Estados Unidos e noutros polos globais. Publicam, coordenam projectos, orientam estudantes, fazem avançar o conhecimento. Não estão “perdidos”. Estão integrados. Só não estão cá.

Durante muito tempo chamámos a isto “fuga de cérebros”, como se se tratasse de uma falha moral ou de uma traição silenciosa. Por vezes usámos esta “fuga de cérebros” como arma de arremesso política. Hoje sabemos que essa leitura é simplista. A emigração qualificada portuguesa não resulta de uma vontade excepcional de sair, mas de um desajuste estrutural entre a produção de talento e a capacidade do país para o absorver. Não se trata tanto de escolher partir, mas de não encontrar razões suficientes para ficar, não sentir necessidade de regressar.

Aqui importa fazer uma distinção essencial: regressar não é o mesmo que circular.

Muitos investigadores portugueses no estrangeiro mantêm uma ligação ativa ao país. Colaboram com colegas, participam em projetos europeus, orientam doutorandos, escrevem em coautoria, contribuem para redes científicas. O conhecimento circula, mesmo quando os corpos não regressam. Esta circulação é, hoje, uma das formas mais realistas de participação de países periféricos no sistema científico global.

O problema é que continuamos a pensar o regresso como solução mágica. Criam-se programas, incentivos, concursos pontuais, esperando que o talento “volte”. Mas regressar exige mais do que vontade individual. Exige ecossistemas científicos capazes de acolher, integrar e valorizar percursos altamente competitivos. Exige estabilidade, previsibilidade e massa crítica. E isso não se constrói por decreto.

Além disso, quando o regresso acontece, tende a concentrar-se nos mesmos lugares de sempre. Lisboa atrai regressos, o interior continua à espera. Neste sentido, políticas de regresso mal pensadas podem, paradoxalmente, reforçar desigualdades territoriais em vez de as corrigir.

Talvez seja tempo de mudar a pergunta.

Em vez de insistir apenas em “como fazer regressar”, devíamos perguntar: como transformar a circulação em vantagem? Como usar a diáspora científica como extensão do sistema nacional, e não como o seu espelho ausente? Como criar pontes duráveis entre quem está fora e quem permanece, entre centros globais e territórios frágeis?

Pensar a ciência a partir do território obriga a aceitar um princípio desconfortável: nem todos os lugares podem fazer tudo. Mas todos os lugares podem fazer alguma coisa, se houver estratégia, especialização e ligação a redes mais amplas. Isso implica políticas científicas articuladas com políticas territoriais e não apenas com métricas abstratas de excelência.

Implica também reconhecer que a ciência não é apenas produção de artigos ou subida em rankings internacionais. É formação, capacidade institucional, ancoragem local e efeitos indiretos sobre a economia e a coesão social. Uma universidade, um politécnico ou um centro de investigação não transforma um território apenas pelos prémios que ganha, mas pelas relações que constrói.

A ciência, tal como outras atividades intensivas em conhecimento, precisa de tempo, cuidado e contexto. Não cresce em qualquer solo. Precisa de condições, mas também de visão. E, sobretudo, de aceitar que o crescimento não é uniforme nem imediato.

Portugal não resolverá a sua posição periférica na ciência fingindo que ela não existe. Mas pode transformá-la se souber trabalhar com o que tem: pessoas altamente qualificadas, redes internacionais ativas e uma diáspora que, apesar de tudo, continua ligada ao país.

A desigualdade territorial da ciência não se combate apenas com regresso. Combate-se com circulação inteligente, com políticas realistas e com a coragem de pensar a ciência não como promessa vazia de igualdade, mas como campo de escolhas, limites e possibilidades.

Porque, no fim, o problema não é que os cientistas partam. O problema é não sabermos ainda como fazer com que, mesmo partindo, continuem a contar. Regressaremos a este tema ou, dito de outra forma, este é um tema que vai circular.


 
 
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Pedro Góis



 
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