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14-02-2026        Jornal de Notícias

Em democracia, os portugueses foram capazes de pegar num país atrasado e tolhido pela tacanhez cívica e política e transformá-lo profundamente, conquistando ganhos excecionais na saúde, no ensino, educação e formação, na cultura, na segurança e proteção sociais, na habitação, em infraestruturas, no valor e direitos do trabalho, bem como na capacidade de produzir riqueza.

Desde os primeiros anos do presente século, os avanços conquistados começaram a ficar tolhidos, uns atrás dos outros, fruto de políticas internas e externas de muito baixa densidade solidária e democrática. Assim se ampliaram descontentamentos que as forças ultraconservadoras e fascistas aproveitam e enquadram numa memória histórica manipulada, falsa, atribuindo à democracia a origem dos problemas.

O processo eleitoral, que terminou com a eleição de António José Seguro para presidente da República, mostrou-nos que a grande maioria dos portugueses ama a democracia e tem consciência de que é com ela que se podem construir compromissos que salvaguardem o que é fundamental para a vida de cada pessoa e para a sociedade. Esta confirmação seria sempre importante, mas é-o particularmente no presente, por três fatores essenciais.

Primeiro, a destruição provocada pelas tempestades e cheias é enorme. No longo período de identificação dos problemas e de necessária recuperação precisamos de uma ação política de persistentes alertas e responsabilização. Os investimentos (públicos e privados) na reconstrução e na prevenção serão elevados. Isto acontecerá num contexto marcado pela existência de um Governo muito fraco, enredado em compromissos com a extrema-direita e com um liberalismo económico que pode querer travar aqueles investimentos. A atenção de todos os poderes democráticos e, desde logo, do mais alto magistrado da nação, será primordial.

Segundo, é possível revitalizar poderes intermédios, bem como movimentos sociais e estruturas de mediação e intermediação que espevitem consciências e impulsionem ação transformadora, a partir da afirmação de compromissos constitucionais. Os sinais, mais ou menos discretos vindos de Belém, evidenciando esses compromissos, podem ser preciosos para este objetivo.

Terceiro, é cada vez mais evidente que Portugal se está a tornar um caso de estudo sobre como a persistência num errado perfil de especialização da economia pode bloquear rapidamente o processo de desenvolvimento de uma sociedade e deitar borda fora ganhos que demoraram três gerações a conquistar. Os duros efeitos dos fenómenos meteorológicos que nos atingiram põem a nu os pés de barro de uma "modernização" assente em atividades de baixo valor acrescentado, de especulação imobiliária, de desvalorização do trabalho e das profissões criadoras de maior riqueza, de secundarização de direitos sociais fundamentais.

O apego dos portugueses à democracia pode contribuir muito para desbloquear o país.


 
 
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Manuel Carvalho da Silva



 
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