O atual quadro político mundial - e até nacional - é de difícil leitura, em particular para quem acreditou e acredita que a luz do progresso da humanidade acabará por derrotar a escuridão do ódio, por colocar barreiras à normalização da exploração do homem pelo homem e por salvaguardar bases fundamentais da relação metabólica Homem/sociedade/natureza. É difícil identificar e compreender tudo o que de relevante está a acontecer e apontar caminhos para a ação.
Na estância de Davos, no Fórum Económico Mundial, tivemos a exposição de realidades chocantes e fomos despertos para perigosos becos em que estamos metidos. Os 12 indivíduos mais ricos do planeta, cujo mérito é serem especialistas (ou chefes de especialistas) do roubo mais ou menos legal, possuem uma fortuna de valor superior aos recursos materiais dos 4 mil milhões mais pobres do planeta. Esta perversa acumulação é a causa de muita miséria e vai piorando condições de vida da maioria da população em todas as escalas: mundial, regional e dos países.
Este sistema de aspiração da riqueza desenvolveu-se, desde logo, no nosso Ocidente: i) em nome das vantagens "universais" do crescimento económico e do direito à utilização unilateral dos seus resultados por parte dos detentores do capital; ii) com a entrega da estruturação dos direitos fundamentais dos cidadãos às leis do mercado; iii) com a institucionalização de crises para limpar canais, quando estes começam a acumular muito lixo; iv) com o incremento do belicismo associado ao refinamento do liberalismo económico, opções que aniquilarão as instituições mundiais e outras que nos trouxeram até aqui.; v) com a entrega da gestão dos grandes avanços científicos e tecnológicos a interesses privados e suas plataformas de ação.
Em Davos, prosseguiu o endeusamento do crescimento e a secundarização da distribuição da riqueza. Trump, que viu a sua fortuna pessoal aumentar três mil milhões de euros num ano, apareceu a dar sinais de poder tornar-se um monstro (ocidental) sem controlo. Ficou evidente que esse sistema de aspiração da riqueza é feito com imensos desperdícios das capacidades humanas, tecnológicas e científicas existentes e que não permite respostas a problemas climáticos, ecológicos, ambientais, demográficos ou de reformulação adequada dos sistemas de saúde, ensino e formação.
Vimos a maioria dos governantes europeus à deriva. Só depois de muitas asneiras e subalternizações deram sinais de querer fazer frente às ações da Administração norte-americana, e não é seguro que sejam reações verdadeiras. Ao mesmo tempo, Zelensky pôs a nu que os europeus o empurraram para a guerra e que está agora mais débil. Por cá, o Governo força o rumo do desastre. Mas recebemos um convite para integrar o "Conselho da Paz" de Trump, talvez na expectativa de podermos seguir o gesto de Corina Machado, que agradeceu à criatura "o seu compromisso singular com a nossa liberdade".