Terminou a campanha eleitoral para as eleições presidenciais de amanhã, estamos em dia de reflexão. Vários indicadores vindos da campanha sugerem-nos que estas eleições são, talvez, aquelas que mais justificam a existência de desligamento para refletir. E, para afirmação da democracia, é preciso que, amanhã, todos os eleitores votem.
Dizem-nos os dicionários da língua portuguesa que, do ponto de vista da medicina, uma alucinação é uma "falsa perceção". A alucinação acontece quando os sentidos de uma pessoa veem, ouvem ou sentem "algo que não existe". A alucinação é sempre "devaneio, delírio, loucura". Reflitamos, pois, tendo presente que, hoje, a fundamentação de decisões políticas de quem governa, ou a formulação de propostas por parte de forças que se alcandoram ao poder, privilegia as perceções em desfavor de constatações obtidas por conhecimento científico e empírico.
Vai-se instalando um percecionismo "à la carte" e, concomitantemente, uma normalização de propostas e atos hediondos, incluindo a banalização da guerra. Em inúmeros países (incluindo o nosso) vemos o trumpismo instalar-se e medrar. As perceções manipuladas sobre a origem e dimensão dos problemas servem a construção de políticas que rompem solidariedades; colocam cidadãos a autoflagelarem-se porque estão isolados em becos; facilitam o avanço da financeirização da economia e da sociedade; destroem valores e instrumentos do trabalho digno e do Estado social. Assim medra o neo-obscurantismo. Nas nossas reflexões assumamos uma certeza: a democracia não tem uma elasticidade sem limites.
À escala global, todos os dias surge uma novidade pior que a do dia anterior, que já era má. E está em marcha uma visão boçal, muito perigosa, das relações internacionais. No espaço europeu e ocidental a que pertencemos, os interesses dos detentores dos negócios dos Estados Unidos da América - onde o negócio das armas é o maior - sobrepõem-se ao direito internacional, à soberania dos estados, aos interesses dos povos. Quem quiser ser aliado dócil talvez tenha direito, ocasionalmente, a um rebuçado. Os países que defenderem a sua independência e a dignidade dos seus povos serão chantageados. Mas, é por aqui que devemos ir. E, é para agir neste rumo que precisamos do presidente da República.
Somos um país com um percurso histórico longo e de que nos orgulhamos. Os quase 52 anos de vida em democracia abriram-nos horizontes e permitiram-nos realizações. Hoje temos alguns objetivos por alcançar e novos desafios em áreas vitais como a habitação, a saúde, a educação e formação, a segurança e proteção sociais. Sabemos que a corrosão do regime democrático resulta, muito, da incapacidade de conceber e implementar respostas políticas sérias.
Não precisamos de governações que agem numa mescla de incapacidade, cegueira ideológica e arrogância própria de quem nega a realidade. Precisamos, sim, de governantes não alucinados.